Já assim era com o Vítor. Como se por ele não me dar cravos eu procurasse rosas noutro sítio. Nunca nada é perfeito. Nunca nada é inteiro. A mesa coxeia sempre um bocadinho, mesmo que teimemos em pôr-lhe papelinhos dobrados debaixo do pé curto. Em todos os minutos de uma noite encontra-se sempre um mais inquieto, mais fugidio. Esse, o filho da puta, que trava a porta com o pé e deixa entrar o que vem a mais. Há coisas que consigo fingir, por mim, por ti; outras que é impossível. Já assim era com o Vítor.


e-mail comments

    Ao fundo o oceano. Imenso, como se quer. Como se quer o oceano e como se querem outras coisas, as da carne, as do coração, as das ideias.
    Tudo se quer imenso, e a imensidão é um fardo que se carrega quando é apenas a sua imagem.
    A mulher em primeiro plano gosta das cores definidas, das linhas bem visíveis; se fosse pintora, riscaria linhas fortes, dessas que rasgam a tela. Se fosse pintora, ou se fosse escritora, ou se fosse compositora, mas a mulher em primeiro plano é a carne que mostra e a essência que afugenta, que aprisiona, que repele.
    Talvez por isso se dê no imediato. Talvez por isso sinta, em cada homem com quem se deita, a vitória tornada combustível para os dias vazios, para o coração à deriva, para as noites frias.
    Talvez por isso se deite ao sol, de olhos fechados, ouvindo o oceano que afinal não é maior do que a sua solidão.


    e-mail comments


      Anos e anos, quantos? Mais de uma dezena. Jogos, confissões, confidências, cigarros, risos.

      Depois, de repente, como foi que aí chegámos?, um beijo. A tua língua sôfrega na minha. A minha língua na tua macia, os meus lábios na tua barba cuidada, de quantos dias?

      Os meus braços envolvendo-te o pescoço (és mais alto do que me tinha parecido), os teus braços enlaçando-me a cintura. As mãos tornadas exploradoras de um território que não sabíamos por explorar.

      Sinto-te respirar no meu pescoço e gosto. Ouço-te a voz, falas baixinho, e parece-me que nunca te tinha ouvido antes. Sinto-te a carne firme, o ventre liso, os braços de músculos retesados que me cingem a ti. Abro os olhos e vejo-te enquanto me beijas, de olhos fechados. Estás ali. Estás naquele beijo. Estás ali, indiferente ao que nos rodeia. Estás todo ali, sem artifícios, sem mais jogos, sem outra fantasia que não a de estarmos os dois enlaçados, envolvidos.

      Sinto-te o desejo na massa dura que agarro sobre as tuas calças. Estou a descobrir-te. Como tu a mim quando me desapertas o cinto, depois o botão, depois corres o fecho das calças e finalmente fazes entrar a tua mão em mim e então és tu que sentes o meu desejo.
      Quero-te a ti, que estás ali, nesse momento a ninguém mais, nesse momento és tu, e tu já não és o amigo de anos, mais de uma dezena, o amigo dos jogos, das confissões, das confidências, dos cigarros. Mas és o dos risos, afastamos as bocas para nos rirmos, alegres como crianças que descobriram um pequeno tesouro no quintal, sem culpas, sem recriminações, sem razão que nos atrapalhe.

      Olho-te de soslaio no vidro do quadro que nos reflecte. Fodes-me de olhos fechados, primeiro. Depois abriste-os, olhaste-me como quem vê de fora, sem saberes que te via reflectido, que te olhava também eu, que me parecias outro, transfigurado pelo desejo, tu, cujo sabor fiquei a conhecer, depois de te ter conhecido a ti.

      Anos e anos, mais de uma dezena, e de repente somos outros e não chegamos a pensar que andámos a perder tempo, porque não andámos; é por causa desse tempo que não perdemos que agora usufruimos deste, que ganhamos, que ganhámos.


      e-mail comments


        Chamaste-me Rosa dos Ventos. Eu não aposto, mas quase, que não sabes que estás tão certo. Que estou contigo, agora, nesta cama, como poderia estar com outro qualquer, porque qualquer um serve para não me dar nada. Porque qualquer um serve para a foda imediata, funcional na sua essência.

        Mas chamaste-me Rosa dos Ventos, e com esse pormenor fizeste-te diferente. É verdade, não sabias?, a mim não me seduzem presentes caros e fins de semana em spas; a mim seduzem-me as palavras. As palavras com que me pedes um broche. As palavras sem sentido que dizes quando te vens. As palavras. Como Rosa dos Ventos. Mesmo que não saibas que sou como aquelas plantas do deserto, sem raizes, arrastadas pelo vento, com leveza, sem esperas.


        e-mail comments

          (foto: Hoffenreich)
          Que tirasse a velha camisola de algodão com que andava por casa. Ela não tirou. Que deixasse a saia comprida levantada até à cintura. Ela baixou-a. Que ajoelhasse e lhe fizesse um broche. Ela não ajoelhou.Não lhe permitiu as mãos nas mamas, não deu a língua ao seu beijo, não descruzou as pernas.
          Até que ele se levantou, manietando-a e forçou o seu pénis contra a sua boca. Ela resistiu. Ele tapou-lhe o nariz, obrigando-a a abrir a boca como se faz às crianças que teimam em não comer.Com a primeira vitória, ele empurrou o pénis contra a sua garganta e não deu tréguas, nem quando ela sufocava. Quando lhe retirou o pénis da boca para que ela lhe lambesse os colhões, ela ainda arriscou: "mordo-te", mas com isso só conseguiu que ele fizesse o seu cinto cair com força sobre as suas nádegas. Depois, como incentivo para que se empenhasse mais, o cinto atingiu-a ainda nas coxas, nas mamas, na cona, nas costas.Prendendo-a ainda, ele disse: "vou enfiar-te os dedos na cona, se estiveres molhada vou-te aos cornos." Estava. E ele deixou no seu rosto afogueado a marca vermelha da sua mão. Virando-a e deixando-a de quatro, impôs o ritmo manuseando o cinto que lhe tinha passado pelo pescoço. Ela arfava, mal conseguindo respirar, mal conseguindo queixar-se das dores das fortes palmadas nas nádegas.Obrigou-a depois a sentar-se sobre ele, a vir-se enquanto lhe apertava dolorosamente os mamilos. Veio-se ele também.Ela levantou-se um pouco, apenas o suficiente para poder ver o esperma a escorrer da sua cona encharcada para cima dos pelos púbicos do homem. Na sua boca desenhou-se um esgar, como se lhe dissesse "só me posso vingar assim, é o que faço.". Não contente, o homem mandou-a limpá-lo com a boca. Ela, aproveitando o seu estado frágil de homem que acabou de se vir, recusou fazê-lo. Limpou-o à sua saia vermelha. Ele disse-lhe que a vestisse assim suja. Ela vestiu-a.Ele levantou-se e foi-se embora.


          e-mail comments

            E depois, de repente, fica uma mulher sem saber em que frame se há-de concentrar para se vir mais fortemente.
            Revê as mais recentes, estão ainda com cores vivas e sem imagens fugidias.
            A inesperada primeira foda, apressada, melhor, ansiosa, na sala de porta aberta para quem calhasse passar? As palavras sussuradas soprando-lhe para o pescoço? A confissão de desejo adiado? As mãos dificilmente enfiadas numas calças e as outras mãos mais à vontade metidas noutras calças? A roupa e o cabelo compostos à pressa porque alguém chega?
            A foda já conhecida e por isso tão inteira? Os caminhos para um orgasmo que se sabe de cor e que por isso se anseia? O corpo que se conhece e que já se molda ao nosso, sem se perder tempo com descobertas?
            A outra foda, a repetida clandestinamente, casualmente, foda absoluta de animais absolutos?
            Optou por fixar-se na concentração de todas, separadas por poucas horas, por poucos quilómetros, imaginando-se a caçadora que caça por onde passa, pelo prazer de caçar, não pela necessidade.
            O prazer.
            E veio-se, a mulher, lamentando apenas outra ainda, a que já não tinha tido tempo de caçar, a que um mar inteiro separava, provavelmente a que mais lhe tinha apetecido.


            e-mail comments

              (no image)

              O maior afrodisíaco é este, o desejo que um homem tem por mim, objectivamente. Não o desejo que se tem por uma mulher que passa na rua e que arrasa por onde passa. Este, por mim. Pelo meu corpo com todas as suas imperfeições. Pelo meu andar. Pela minha voz. Por mim.

              Não o desejo que advém do amor ou da paixão, o desejo carnal, apenas, objectivamente por mim. De um homem que me quer a mim por ser eu, não apenas porque a oportunidade surge.

              Uma forma de soprar o pó cinzento que cobre a cor púrpura. Antes que com a idade murche de vez.


              e-mail comments

                Não é que não te ame, Vítor. E desta vez não foi por despeito. Ou terá sido? Terá sido o despeito causado pela tua entrega comedida? Pela tua relutância em seres meu?
                Ele surgiu, do nada, como tantas outras vezes. Mas desta vez foi diferente. Desta vez chamei-o a mim. E fechei os olhos quando me pegou no queixo e me beijou. Quando a sua língua entrou na minha boca. Quando as suas mãos entraram pelas minhas calças, quando mas desapertaram. Abri-os depois quando lhe desapertei o cinto, quando a minha mão encontrou o seu pénis faminto de mim.
                E depois, Vítor, foi entre risos e alegria que nos fodemos apressadamente, clandestinamente, numa sala com a porta aberta para as escadas. Foi entre risos que nos interrompemos quando alguém chegou e compusémos roupa e cabelos.
                Depois foram os sorrisos. As confidências "Há tanto tempo que te queria", e o meu ego coroado de estrelas levou a minha boca, uma vez mais à sua. E o seu abraço aqueceu-me.
                E agora, Vítor?


                e-mail comments


                  A noite não estava tão quente como poderíamos esperar. Ainda assim, deixámo-nos ficar encostados à porta das traseiras, a fumar, enquanto lá dentro o fadista continuava a banda sonora dos nossos sentidos.
                  Consigo lembrar-me do fado, do verso até, que de dentro nos chegava, quando ele pousou no chão o seu copo e me colou à parede com a força do seu corpo.
                  "Meu amor dá-me os teus lábios" e eu, não sendo o seu amor, dei-lhos. E com os lábios, a língua. As mãos.
                  Viela escura de amantes franceses em Lisboa. Filme a preto e branco, eu sem chapéu nem caracóis nos cabelos.
                  Afastei um pouco as minhas pernas quando a sua mão me agarrou a coxa e começou a subir. A saia curta facilitou o anseio. A minha vontade ensinou-lhe o caminho.
                  "Meu amor dá-me os teus lábios" e eu também lhos dei. Aos seus dedos certeiros. Prendi-o na minha boca, que era o que nos bastava.
                  E devagar, sem sobressaltos, em arroubos cadenciados, as minhas costas magoadas na parede agreste, os meus cabelos presos numa das suas mãos, o seu sexo no meu quase cantava "Meu amor dá-me os teus lábios".


                  e-mail comments