- Ser ex-amante é um estatuto talvez mais importante do que ser amante. Porque já não é só o sexo, é aquilo que se guarda com desvelo, mesmo depois da chama, do desejo. Transforma-se numa amizade tão mais especial quanto mais tempo durar. Abre espaço para confidências mais íntimas. Aproxima-nos para nunca mais nos afastar. Um simples amigo dificilmente te contará pormenores do sexo que faz com outras. Um ex-amante conta-tos. Às vezes até pode dizer que foi como daquela vez em que também ele e tu o fizeram. Às vezes até pode dizer que não foi tão bom. Ou que esta de agora não tem aquele teu toque. Ou que não diz como tu dizias. Seja como for, seres ex-amante de alguém é um laço que nunca se rompe. De cada vez que se cumprimentarem em frente aos amigos, a quem os conhece, alguém há-de reparar num pequeno demorar da mão, num pequeno trejeito no sorriso, no especial à-vontade dos corpos. E essa é a vitória suprema, seres para sempre a ex-amante. Não a ex-foda, o ex-caso. A ex-amante.


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    Assim, de olhos fechados, não te vejo as imperfeições. Assim, de alma fechada, não tas sinto. E de janela fechada és quem eu quiser, e também posso ser quem tu quiseres. Porque às vezes ninguém basta a ninguém. Então podemos, sendo quem quisermos, ser quem somos, fingindo como bons poetas, trocando beijos como se nos amássemos e promessas como se acreditássemos nelas.
    O tempo afasta-nos de quem somos e de quem sonhámos ser, mas não faz mal, o momento é este, agora. De ti nada espero, não esperes nada de mim. A não ser a fusão dos corpos. A não ser o momento sem depois, sem além disto.
    Eu não sou mais do que isto. Tu não és mais do que o que sonho. A realidade é outra. No escuro não vejo as imperfeições e posso, depois, adormecer sossegada.


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      Uma noite começa por ser de copos. Acaba por ser de sexo. Por quanto tempo se pode esta noite arrastar? Enquanto houver tesão, diriam alguns lábios mais púrpura. Enquanto houver vontade, diriam bocas guerreiras. Enquanto não acabar, pensariam em silêncio as outras.
      E em que se pode transformar, enquanto se prolonga? Em mais sexo, responderiam os mesmo lábios púrpura. Em mais sexo e de vez em quando de mão dada, diriam esperançosas as guerreiras. As outras diriam: em mais uma desilusão.
      Qualquer uma delas, o melhor que faria seria refugiar-se num quarto escuro e aquecido e procurar no próprio corpo o prazer que tudo apaga, que tudo esconde, que tudo ilude. Num esforço último para que que as derradeiras pétalas não caiam de velhas.


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