Sabia da utopia que sonhava real, do seu punho no ar enquanto no peito o coração lhe assalta o peito, sabia das suas mãos abertas e dos seus olhos grandes com o vermelho das bandeiras, sabia do que cantava, sabia do único ícone que aceitava, sabia daquilo em que acreditava.
No pólo oposto olhava-a sarcástico, por vezes acutilante, por vezes divertido.
Sem que lhes parecessem incontornáveis estas dificuldades, fazendo por ignorar outras, delinearam uma estrada por onde seguiram juntos, um na berma esquerda do caminho outro na direita, de mãos dadas, como deve ser, que afinal a liberdade é o bem maior.

(De vez em quando ela olhava para trás, tropeçava, atrasando-lhe o passo.)





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    Mesmo que não sejam para mim. Mesmo que ninguém mos escreva. Quero acreditar. Que quem escreve amor o sente. Por alguém. Que há quem saiba que é para si. Que tenha como suas e como certas as palavras que depois outros lêem e apenas podem roubar, tomar como suas, usurpar.
    É preciso que haja quem seja amado para que todos os outros não morram.


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      Um dia ela falou-lhe da sensação de orgasmo que por vezes vem quando se chora. Ele não percebeu. Ele não é ela. Ninguém é ela. Por vezes nem ela própria. Mas quando é, e quando chora, por vezes nas mãos anuncia-se o orgasmo. Enganador, bem o sabe. Mas é.


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        O arrepio no final do orgasmo. Cada poro respondendo ao prazer. Cada poro libertando gozo. Puro. O arrepio que eriça os pelos. Que faz doer os mamilos. Que contrai. Como se nada mais existisse. Como se nada tivesse existido antes. Nem fosse existir depois. Puro. O orgasmo.


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          Sempre às voltas, segreda-lhe ela, já não sabes onde começaste, não sabes onde queres parar. Sossega um pouco, mulher, respira fundo, fecha os olhos e sente o teu corpo, lembra-te de como é bom, de como te faz sentir segura. Estás tão zonza que já não sabes onde moras, onde pertences. Sim, sei que duvidas que pertenças a algum sítio, mas todas nós pertencemos, nem que seja à loucura ou à solidão.


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