A manhã chegava, o sol ao fundo, baixo ainda. Sentada na cadeira da varanda do hotel, enrolada numa manta grossa, ela olhava o mar tão perto que quase lhe tocava. Embalada pelo vai e vem das ondas mansas, o cigarro quase no fim, ela voltou a cabeça para o quarto onde ainda dormia o homem. A cama estava desfeita, as roupas dele penduradas na cadeira, as dela espalhadas pelo chão. No seu corpo, nas suas mãos, no seu cabelo, a mulher sentia ainda a presença física do homem que ainda dormia.
Tentou lembrar-se da última vez que se sentira assim, sem que nada num homem a incomodasse, nem o seu ressonar, nem o sono fácil, nem o cheiro, nem a voz, nem as palavras, nem a presença de manhã, nem o penteado, nem o pijama.
Não conseguiu lembrar-se. Fora, com certeza, noutra vida. Talvez, com sorte, noutra mulher.


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    É o tempo a rir-se de mim, da minha aflição, da minha impotência ao vê-lo passar por mim, de dedos estendidos sem lhe conseguir tocar. Ri-se de mim, o cabrão, e com razão. Sabe que durante anos fui eu que o ignorei, como se ele na verdade não passasse, como se me pudesse dar ao luxo de encalhar em cada obstáculo e deixar-me ficar a patinar, como se fosse um brinquedo chinês, sem avançar, sem recuar.
    Ri-se de mim quando ao espelho faço o jogo do "descubra as diferenças" entre o antes e o agora. Ri-se ainda quando faço contas à vida e concluo que não o ignorei, quando pensava que o fazia, o que fiz foi perdê-lo. Ri-se o cabrão e segreda-me: Assim como me foste perdendo a mim, Rosa, assim perdes tudo o resto que te calha, como na alegoria da areia, apertas demais, soltas demais, nunca o meio termo, Rosa, nunca o meio termo. Não avanças nem recuas, ficas às voltas até ficares tão tonta que já não consegues pensar, que já não consegues decidir-te.
    Agora, Rosa querida, sou eu que te digo: vai-te foder.


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      É um dos muitos momentos de insónia nas minhas noites. Acordada, dou ainda duas ou três voltas na cama, esperando que o sono tenha ficado por perto para que o possa agarrar ainda com as pontas dos dedos. Mas não. Como noutras noites, tinha saído a galope, fugido de mim como eu mesma tantas vezes faço.
      Acordada, a noite ainda a meio, procuro não me angustiar com as horas de vigília forçada. O meu corpo está quente, entre os lençóis. Sabem-me bem as minhas mãos na pele amaciada pela cama. Toco-me devagar com o sorriso escondido que me dá a certeza de ser eu mesma a minha melhor amante. Surpreendo-me escondendo entre as pernas a minha mão direita, fazendo-a entrar por entre as cuecas, tocando-me primeiro devagar, depois mais assertiva. A minha mão esquerda desvia as alças do top, fá-lo descer um pouco e afaga e esmaga e aperta e celebra como nunca ninguém saberá fazer, as minhas mamas pequenas, quentes e macias.

      Venho-me. Para mim apenas. Sem fantasias outras que me distraiam, que repartam o mérito deste orgasmo solitário com que encho a insónia e os sentidos.

      Levanto-me para fumar um cigarro, na janela de outro quarto que não aquele onde durmo, do quarto onde guardo o computador, os discos antigos, outros pedaços de vida e de história. O computador avisa-me da chegada de novo email. Vou espreitar. Do outro lado da noite chega-me este pedaço de ti. Abro a foto e a minha boca ainda encortiçada pelo orgasmo recente, começa lentamente a encher-se de saliva, uma saliva grossa, a do desejo. E imagino, quase sinto, esta tua carne, este teu sangue na minha boca, a minha lingua passando arrastando a pele, descobrindo a tua maior sensibilidade, os meus dedos na tua boca, procurando e encontrando suavemente a tua lingua. Olho para a foto que me enviaste e este pedaço de ti, esta virilidade a preto e branco é tão real que a minha boca está cheia de ti, que te sinto os impulsos, que te sinto contra a minha garganta, que sinto a minha lingua envolvendo-te, quente, tão quente tu, desse lado da noite.

      Depois, de olhos fechados como se viesse o sono, fico a degustar o sabor do esperma que não me deixaste na boca, mas que podias ter deixado, se o teu lado da noite e o meu lado da noite fossem, esta noite, o mesmo.


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        Já conheci quem, por motivos seus, não gostasse de foder pela manhã.
        Já conheci quem, por motivos seus, não gostasse de foder à tarde.
        Já conheci quem, por motivos seus, não gostasse de foder antes de dormir.
        Já conheci quem, por motivos seus, não gostasse de ser acordado a meio da noite para foder.

        Depois, conheci-te a ti.


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          Lembras-te de quando há muitos anos fomos à praia, num dia frio como o de hoje, cada um fugindo aos seus compromissos, enlaçando as mãos geladas, as minhas nas tuas, escondendo-as depois na nuca um do outro, à procura de calor, correndo na água, os salpicos, tu com os teus ténis e as minhas botas na mão, eu a desviar, a cada minuto, os cabelos dos olhos.
          Foi há muitos anos, tantos que, à distância, parecemos outros. Agora ao ver a tua barriga, as rugas no canto dos meus olhos, as histórias desencantadas que fomos vivendo, parecemos outros.
          Quando eu sobre ti e depois tu sobre mim alegremente ríamos e fundíamos os nossos jovens e desempoeirados corpos, sem expectativas, sem passado nem futuro, sem amarguras nossas ou de outros, o mundo era todo uma praia ou uma seara.
          E eu amei-te tão alegremente que hoje só ao segundo olhar me reconheces.
          Não pareces outra, dizes-me, deixando adivinhar o resto da frase.


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            Colhes uma rosa no caminho.
            Sentes-lhe o perfume ou foges dos seus espinhos?


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              Pelo que consegue ainda recordar este meu cérebro cansado de tantas insónias e outros atropelos, somos capazes de ouvir, numa fase na nossa vida, uma qualquer frase e passar-lhe ao lado, e noutra acharmos que foi a pior coisa que já nos disseram.
              Eu tenho uma colecção de piores coisas que já me disseram. Uma colecção que guardo, estimo e cuido como se fossem peças de museu.
              De vez em quando a colecção ganha mais um elemento. Mais uma palavra, uma frase ou uma expressão que vou rodando nos dedos, a cada minuto, durante muito tempo, até que, por fim, consigo libertá-la das mãos e pousá-la na prateleira, junto às outras.
              Solução de compromisso. Solução de compromisso. Solução de compromisso.
              Antes de a libertar, tento encontrar-lhe préstimo, como quando me deixava ficar debaixo de um homem que já não me dava tusa, só para não ter de lho dizer.
              Solução de compromisso.
              Solução de compromisso é como orgasmo fingido, verdade adiada.
              Puta que me pariu a vida.


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                Conduzi a tua mão desde a minha boca, onde me pedias beijos, até ao meu umbigo e aí a deixei, a ver, só a ver se lhe apetecia encontrar o resto do caminho sozinha.
                Deitada sobre os lençóis brancos, ainda fiz escorregar o corpo ligeiramente para cima, na esperança de que a tua mão percebesse que se devia deixar ficar, indicando-lhe o caminho.
                Mas não. A tua mão perdeu-se em carícias distraídas na pele da minha barriga, como quem faz isso todos os dias e já nem repara ao que vai.
                Depois, o peso das horas, dos dias, das semanas, trouxe o sono, o teu sono. Senti-te dormir, sossegado, quieto, confiante, alheio, enquanto de costas para ti, sentada à janela, enrolada numa velha manta de viagem, fumei mais um culpado, amargo, pesado, cansado cigarro.
                (Como eu queria, meu querido, a leveza que perdi noutros dias, para me deixar ficar, sem sobressaltos.)



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                  “Um dia, já eu era velha”, quando já precisava de descansar em cada esquina do dia, antes de seguir o caminho, os meus sentidos tropeçaram nela.
                  O que se diz por aí das mulheres apaixonadas? Que são mais atentas? Mais palermas? Mais intuitivas?
                  Mais do que perceber-lhe as formas, a cor do cabelo, o jeito das mãos, senti-lhe o cheiro e distrai-me com o som do vento a passar pelos seus cabelos.
                  Mentalmente, como me habituei a certos diálogos, disse-lhe que gostava que fosse minha. “Tua amiga? Tua amante? Tua irmã?”
                  Apenas minha. Como se fosse o que fui perdendo de mim e que em certas manhãs de frio, afinal, me faz falta.
                  “Estás apaixonada?”, perguntou-me ela. Mas o meu tempo de descanso na esquina do dia tinha já chegado ao fim e eu tive que seguir caminho, sem lhe poder responder.
                  Mais tarde no dia, como tantas, tantas vezes, havia de lamentar a minha pressa.



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                    Tresandava a pretexto, pensava eu enquanto no elevador ajeitava o cabelo e a gola do casaco. Ainda assim, quando me abriu a porta, disse-lhe ao que ia: buscar o que era meu, ainda que tivesse sido também seu, de algum modo.
                    Entrei, deixando atrás de mim o seu sorriso iluminado de olhos verdes, escuros e inquietantes. Quantas vezes tinha eu já cruzado aquela porta? Algumas vezes com pretextos como o de hoje, fazia parte do jogo; como fazê-lo acreditar que agora era apenas para ir buscar aquilo que tanto gostara de guardar para si, mas que era brinquedo meu?
                    Sentei-me no sofá, querendo mostrar que estava segura. Cruzei as pernas quando me olhou, tentando não pensar que ele sabia que os seus olhos, aquela espécie de sorriso, a voz, as mãos, as velhas jeans me excitavam mais do que o que tinha ido buscar, tentando não lembrar as horas, tantas em tantos anos, que ali tinha passado.
                    Como em tantos outros jogos com ele, este começou assim: a medir forças.


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