Sem grande final, daqueles a que o cinema nos habituou, assim sai de cena, sem maçar mais com palavras pesadas.


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    Quando fecho os olhos e as suas mãos entre as minhas pernas insistem para que me venha. Quando a sua língua me aquece a boca. Quando a minha mão lhe desaperta as calças e crava os dedos no seu pénis. Quando a sua boca desce até às minhas mamas e as beija e morde devagarinho. Quando a minha boca o procura para mais um beijo. Quando se vem na minha boca e eu o engulo inteiro. Quando abro os olhos e o vejo, no último estertor do orgasmo, olhando-me como se me visse.


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      Quantas noites me vi sozinha nesta casa, à tua espera? Quantas noites me vi acompanhada nesta casa, à tua espera?

      Tu vens, é certo, hoje ainda, amanhã, depois, acabas por vir. Mas, e quando vens? Porque continuo à tua espera? Porque me trazes o sorriso molhado da rua, o olhar comprazido dos outros, a energia frenética dos teus dias?

      Porque não vens despido de memórias, de princípios, de certezas, apenas para mim, quando vens? Porque não me fazes sentir que a espera não faz menos de mim? Porque tenho que me despir de mim para te poder sentir? Porque é que me fazes ter medo de agir e só me sobra o reagir? Porque é que falta a leveza, a entrega absoluta?

      A minha casa é o meu castelo. Quem fará de mim sua princesa?


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        (pra não dizer que esqueco os dias púrpura)



        Além de me foder bem, com carinho e com fúria, com atenção e egoísmo, gritando-me e no silêncio, gosta de me surpreender. Nada de rosas vermelhas ou pulseiras de diamantes. Nada de jantares em restaurantes pseudo-românticos ou vistosas caixas de bombons raros e caríssimos. Nada de viagens a ilhas paradisíacas nem fins de semana em iates no alto mar. Faz-me amor e fode-me, intercaladamente, até que, exausta, adormeço, de costas voltadas para ele, a mão a suster-lhe, agradecida, o caralho adormecido, húmido e macio. Deixa-me adormecer assim sem se mover, quase sem respirar. Não me toca. Não me deseja bons sonhos. Parece já nem estar ali. Parece que cada um de nós, saciados agora, volta para a sua própria casa, ainda que fiquemos deitados na mesma cama, lado a lado. É depois de o meu sono ser profundo, é quando a minha respiração sossega e equaliza, é quando a minha mão se recolhe para entre as minhas pernas que ele, despertíssimo, lentamente, sem dificuldade, abre as minhas nádegas. A primeira coisa que sinto, ainda a arrancar-me ao sono profundo, o primeiro, o merecido descanso desta guerreira sem tréguas, é a sua língua meio seca, enrolada e firme, a penetrar-me o cu. Mexo-me um pouco. Os pelos do seu peito fazem cócegas na minha carne macerada. Aproveita esse movimento para agarrar melhor as minhas nádegas e, segurando-as firmemente afastadas, deixa escorrer um fio de saliva que cai frio no calor do meu cu, fodido poucas horas antes. A sua mão força-me a pélvis para cima, mais ao encontro da sua boca. Eu ajeito-me, ainda adormecida e habituada a sonhos bons. Sinto a sua mão abrir caminho pela minha cona, ainda ou já húmida. Sinto-a rodar, perfurar, entrar como se essa fosse a sua casa. Continua a foder-me o cu com a língua. Eu dou-lho, agradavelmente descontraída. A sua mão na minha cona guia todo o meu corpo, puxa-me para cima, obriga-me a manter um ângulo de rins digno de uma artista de circo. E eu não me queixo. Dou-lhe o que quer do meu corpo. A sua saliva molha-me o cu, escorre-me já pelas nádegas, até à cona que abriga a sua mão, metida até ao punho, com convicção. Sinto-o endireitar-se no silêncio do quarto onde adivinho já os primeiros raios de sol, mas não abro os olhos. A sua mão dentro da minha cona alivia o movimento de vai-e-vem e aperto-o para que não a retire. Uma lambidela mais no cu, apenas. Uma lambidela. E, de repente, o seu caralho, sempre bem-vindo, a entrar, a escorregar para dentro desse túnel sempre misterioso e obscuro. A sua mão, agora parada, enche-me a cona e é o seu caralho que me fode o cu com tanta força quanto é possível. E eu abro-me o mais que posso e já sou eu que o fodo, não é ele que me fode a mim. E continuamos a foder-nos, quase violentamente, não fosse o brilho que as minhas pálpebras corridas encobrem e eu sinto o orgasmo cavalgando rapidamente e chamo-o, "vem a mim, vem-te a mim, vem-te para mim", e com a minha mão, com dois dedos da minha mão direita, violento o meu clítoris como se este fosse o meu último orgasmo. E venho-me como um animal selvagem, estrangulando-lhe o pulso enquanto me contraio, dando-lhe o cu que me fode cada vez mais forte, enquanto lhe grito que se venha no meu cu como se fosse um cavalo alado quem me estivesse a foder. Ele retira, bruscamente, a mão da minha cona, segura-me pelos quadris, grita-me que se vem, como se fosse preciso dizer-mo, tal o estertor que lhe sacode as pernas e cai por cima de mim, suado, satisfeito, segurando, com as suas mãos em concha, as minhas mamas feitas para aí caberem e descansarem inteiras. E adormecemos de novo.


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          imagem: rogério marcondes





          Beija-me o corpo. Tu apenas, agora. Não me peças nada. Hoje é dia de receber. O muito ou pouco que me quiseres dar.
          Tinha frio, na rua. Tu não? Não te divertiu o meu nariz avermelhado? Ainda não te ouvi rir. Talvez o faças depois do orgasmo. Eu gosto de rir depois, mas não sei se rirei contigo. Não te conheço nem te beijei.
          Gostas do tule dos cortinados assim agitados pelo ar quente que circula? E do meu cabelo agitado pela tua respiração?
          Eu estou a gostar de ti. Mas é fácil gostarmos de quem nos trata bem o corpo. Não, não insistas, não quero ir para a cama. Gosto do chão junto ao sofá. Daqui a pouco liberto-me. Por agora, estou a gostar de ser o teu objecto de prazer, sem inquietações, sem medo de que não gostes de mim ou de que partas. Sem posse, sem ciúme, sem promessas nem projectos. Apenas o instante. O instante que podemos prolongar enquanto nos for agradável.


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            Já assim era com o Vítor. Como se por ele não me dar cravos eu procurasse rosas noutro sítio. Nunca nada é perfeito. Nunca nada é inteiro. A mesa coxeia sempre um bocadinho, mesmo que teimemos em pôr-lhe papelinhos dobrados debaixo do pé curto. Em todos os minutos de uma noite encontra-se sempre um mais inquieto, mais fugidio. Esse, o filho da puta, que trava a porta com o pé e deixa entrar o que vem a mais. Há coisas que consigo fingir, por mim, por ti; outras que é impossível. Já assim era com o Vítor.


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              Ao fundo o oceano. Imenso, como se quer. Como se quer o oceano e como se querem outras coisas, as da carne, as do coração, as das ideias.
              Tudo se quer imenso, e a imensidão é um fardo que se carrega quando é apenas a sua imagem.
              A mulher em primeiro plano gosta das cores definidas, das linhas bem visíveis; se fosse pintora, riscaria linhas fortes, dessas que rasgam a tela. Se fosse pintora, ou se fosse escritora, ou se fosse compositora, mas a mulher em primeiro plano é a carne que mostra e a essência que afugenta, que aprisiona, que repele.
              Talvez por isso se dê no imediato. Talvez por isso sinta, em cada homem com quem se deita, a vitória tornada combustível para os dias vazios, para o coração à deriva, para as noites frias.
              Talvez por isso se deite ao sol, de olhos fechados, ouvindo o oceano que afinal não é maior do que a sua solidão.


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                Anos e anos, quantos? Mais de uma dezena. Jogos, confissões, confidências, cigarros, risos.

                Depois, de repente, como foi que aí chegámos?, um beijo. A tua língua sôfrega na minha. A minha língua na tua macia, os meus lábios na tua barba cuidada, de quantos dias?

                Os meus braços envolvendo-te o pescoço (és mais alto do que me tinha parecido), os teus braços enlaçando-me a cintura. As mãos tornadas exploradoras de um território que não sabíamos por explorar.

                Sinto-te respirar no meu pescoço e gosto. Ouço-te a voz, falas baixinho, e parece-me que nunca te tinha ouvido antes. Sinto-te a carne firme, o ventre liso, os braços de músculos retesados que me cingem a ti. Abro os olhos e vejo-te enquanto me beijas, de olhos fechados. Estás ali. Estás naquele beijo. Estás ali, indiferente ao que nos rodeia. Estás todo ali, sem artifícios, sem mais jogos, sem outra fantasia que não a de estarmos os dois enlaçados, envolvidos.

                Sinto-te o desejo na massa dura que agarro sobre as tuas calças. Estou a descobrir-te. Como tu a mim quando me desapertas o cinto, depois o botão, depois corres o fecho das calças e finalmente fazes entrar a tua mão em mim e então és tu que sentes o meu desejo.
                Quero-te a ti, que estás ali, nesse momento a ninguém mais, nesse momento és tu, e tu já não és o amigo de anos, mais de uma dezena, o amigo dos jogos, das confissões, das confidências, dos cigarros. Mas és o dos risos, afastamos as bocas para nos rirmos, alegres como crianças que descobriram um pequeno tesouro no quintal, sem culpas, sem recriminações, sem razão que nos atrapalhe.

                Olho-te de soslaio no vidro do quadro que nos reflecte. Fodes-me de olhos fechados, primeiro. Depois abriste-os, olhaste-me como quem vê de fora, sem saberes que te via reflectido, que te olhava também eu, que me parecias outro, transfigurado pelo desejo, tu, cujo sabor fiquei a conhecer, depois de te ter conhecido a ti.

                Anos e anos, mais de uma dezena, e de repente somos outros e não chegamos a pensar que andámos a perder tempo, porque não andámos; é por causa desse tempo que não perdemos que agora usufruimos deste, que ganhamos, que ganhámos.


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                  Chamaste-me Rosa dos Ventos. Eu não aposto, mas quase, que não sabes que estás tão certo. Que estou contigo, agora, nesta cama, como poderia estar com outro qualquer, porque qualquer um serve para não me dar nada. Porque qualquer um serve para a foda imediata, funcional na sua essência.

                  Mas chamaste-me Rosa dos Ventos, e com esse pormenor fizeste-te diferente. É verdade, não sabias?, a mim não me seduzem presentes caros e fins de semana em spas; a mim seduzem-me as palavras. As palavras com que me pedes um broche. As palavras sem sentido que dizes quando te vens. As palavras. Como Rosa dos Ventos. Mesmo que não saibas que sou como aquelas plantas do deserto, sem raizes, arrastadas pelo vento, com leveza, sem esperas.


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                    (foto: Hoffenreich)
                    Que tirasse a velha camisola de algodão com que andava por casa. Ela não tirou. Que deixasse a saia comprida levantada até à cintura. Ela baixou-a. Que ajoelhasse e lhe fizesse um broche. Ela não ajoelhou.Não lhe permitiu as mãos nas mamas, não deu a língua ao seu beijo, não descruzou as pernas.
                    Até que ele se levantou, manietando-a e forçou o seu pénis contra a sua boca. Ela resistiu. Ele tapou-lhe o nariz, obrigando-a a abrir a boca como se faz às crianças que teimam em não comer.Com a primeira vitória, ele empurrou o pénis contra a sua garganta e não deu tréguas, nem quando ela sufocava. Quando lhe retirou o pénis da boca para que ela lhe lambesse os colhões, ela ainda arriscou: "mordo-te", mas com isso só conseguiu que ele fizesse o seu cinto cair com força sobre as suas nádegas. Depois, como incentivo para que se empenhasse mais, o cinto atingiu-a ainda nas coxas, nas mamas, na cona, nas costas.Prendendo-a ainda, ele disse: "vou enfiar-te os dedos na cona, se estiveres molhada vou-te aos cornos." Estava. E ele deixou no seu rosto afogueado a marca vermelha da sua mão. Virando-a e deixando-a de quatro, impôs o ritmo manuseando o cinto que lhe tinha passado pelo pescoço. Ela arfava, mal conseguindo respirar, mal conseguindo queixar-se das dores das fortes palmadas nas nádegas.Obrigou-a depois a sentar-se sobre ele, a vir-se enquanto lhe apertava dolorosamente os mamilos. Veio-se ele também.Ela levantou-se um pouco, apenas o suficiente para poder ver o esperma a escorrer da sua cona encharcada para cima dos pelos púbicos do homem. Na sua boca desenhou-se um esgar, como se lhe dissesse "só me posso vingar assim, é o que faço.". Não contente, o homem mandou-a limpá-lo com a boca. Ela, aproveitando o seu estado frágil de homem que acabou de se vir, recusou fazê-lo. Limpou-o à sua saia vermelha. Ele disse-lhe que a vestisse assim suja. Ela vestiu-a.Ele levantou-se e foi-se embora.


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                      E depois, de repente, fica uma mulher sem saber em que frame se há-de concentrar para se vir mais fortemente.
                      Revê as mais recentes, estão ainda com cores vivas e sem imagens fugidias.
                      A inesperada primeira foda, apressada, melhor, ansiosa, na sala de porta aberta para quem calhasse passar? As palavras sussuradas soprando-lhe para o pescoço? A confissão de desejo adiado? As mãos dificilmente enfiadas numas calças e as outras mãos mais à vontade metidas noutras calças? A roupa e o cabelo compostos à pressa porque alguém chega?
                      A foda já conhecida e por isso tão inteira? Os caminhos para um orgasmo que se sabe de cor e que por isso se anseia? O corpo que se conhece e que já se molda ao nosso, sem se perder tempo com descobertas?
                      A outra foda, a repetida clandestinamente, casualmente, foda absoluta de animais absolutos?
                      Optou por fixar-se na concentração de todas, separadas por poucas horas, por poucos quilómetros, imaginando-se a caçadora que caça por onde passa, pelo prazer de caçar, não pela necessidade.
                      O prazer.
                      E veio-se, a mulher, lamentando apenas outra ainda, a que já não tinha tido tempo de caçar, a que um mar inteiro separava, provavelmente a que mais lhe tinha apetecido.


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                        (no image)

                        O maior afrodisíaco é este, o desejo que um homem tem por mim, objectivamente. Não o desejo que se tem por uma mulher que passa na rua e que arrasa por onde passa. Este, por mim. Pelo meu corpo com todas as suas imperfeições. Pelo meu andar. Pela minha voz. Por mim.

                        Não o desejo que advém do amor ou da paixão, o desejo carnal, apenas, objectivamente por mim. De um homem que me quer a mim por ser eu, não apenas porque a oportunidade surge.

                        Uma forma de soprar o pó cinzento que cobre a cor púrpura. Antes que com a idade murche de vez.


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                          Não é que não te ame, Vítor. E desta vez não foi por despeito. Ou terá sido? Terá sido o despeito causado pela tua entrega comedida? Pela tua relutância em seres meu?
                          Ele surgiu, do nada, como tantas outras vezes. Mas desta vez foi diferente. Desta vez chamei-o a mim. E fechei os olhos quando me pegou no queixo e me beijou. Quando a sua língua entrou na minha boca. Quando as suas mãos entraram pelas minhas calças, quando mas desapertaram. Abri-os depois quando lhe desapertei o cinto, quando a minha mão encontrou o seu pénis faminto de mim.
                          E depois, Vítor, foi entre risos e alegria que nos fodemos apressadamente, clandestinamente, numa sala com a porta aberta para as escadas. Foi entre risos que nos interrompemos quando alguém chegou e compusémos roupa e cabelos.
                          Depois foram os sorrisos. As confidências "Há tanto tempo que te queria", e o meu ego coroado de estrelas levou a minha boca, uma vez mais à sua. E o seu abraço aqueceu-me.
                          E agora, Vítor?


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                            A noite não estava tão quente como poderíamos esperar. Ainda assim, deixámo-nos ficar encostados à porta das traseiras, a fumar, enquanto lá dentro o fadista continuava a banda sonora dos nossos sentidos.
                            Consigo lembrar-me do fado, do verso até, que de dentro nos chegava, quando ele pousou no chão o seu copo e me colou à parede com a força do seu corpo.
                            "Meu amor dá-me os teus lábios" e eu, não sendo o seu amor, dei-lhos. E com os lábios, a língua. As mãos.
                            Viela escura de amantes franceses em Lisboa. Filme a preto e branco, eu sem chapéu nem caracóis nos cabelos.
                            Afastei um pouco as minhas pernas quando a sua mão me agarrou a coxa e começou a subir. A saia curta facilitou o anseio. A minha vontade ensinou-lhe o caminho.
                            "Meu amor dá-me os teus lábios" e eu também lhos dei. Aos seus dedos certeiros. Prendi-o na minha boca, que era o que nos bastava.
                            E devagar, sem sobressaltos, em arroubos cadenciados, as minhas costas magoadas na parede agreste, os meus cabelos presos numa das suas mãos, o seu sexo no meu quase cantava "Meu amor dá-me os teus lábios".


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                              - Ser ex-amante é um estatuto talvez mais importante do que ser amante. Porque já não é só o sexo, é aquilo que se guarda com desvelo, mesmo depois da chama, do desejo. Transforma-se numa amizade tão mais especial quanto mais tempo durar. Abre espaço para confidências mais íntimas. Aproxima-nos para nunca mais nos afastar. Um simples amigo dificilmente te contará pormenores do sexo que faz com outras. Um ex-amante conta-tos. Às vezes até pode dizer que foi como daquela vez em que também ele e tu o fizeram. Às vezes até pode dizer que não foi tão bom. Ou que esta de agora não tem aquele teu toque. Ou que não diz como tu dizias. Seja como for, seres ex-amante de alguém é um laço que nunca se rompe. De cada vez que se cumprimentarem em frente aos amigos, a quem os conhece, alguém há-de reparar num pequeno demorar da mão, num pequeno trejeito no sorriso, no especial à-vontade dos corpos. E essa é a vitória suprema, seres para sempre a ex-amante. Não a ex-foda, o ex-caso. A ex-amante.


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                                Assim, de olhos fechados, não te vejo as imperfeições. Assim, de alma fechada, não tas sinto. E de janela fechada és quem eu quiser, e também posso ser quem tu quiseres. Porque às vezes ninguém basta a ninguém. Então podemos, sendo quem quisermos, ser quem somos, fingindo como bons poetas, trocando beijos como se nos amássemos e promessas como se acreditássemos nelas.
                                O tempo afasta-nos de quem somos e de quem sonhámos ser, mas não faz mal, o momento é este, agora. De ti nada espero, não esperes nada de mim. A não ser a fusão dos corpos. A não ser o momento sem depois, sem além disto.
                                Eu não sou mais do que isto. Tu não és mais do que o que sonho. A realidade é outra. No escuro não vejo as imperfeições e posso, depois, adormecer sossegada.


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                                  Uma noite começa por ser de copos. Acaba por ser de sexo. Por quanto tempo se pode esta noite arrastar? Enquanto houver tesão, diriam alguns lábios mais púrpura. Enquanto houver vontade, diriam bocas guerreiras. Enquanto não acabar, pensariam em silêncio as outras.
                                  E em que se pode transformar, enquanto se prolonga? Em mais sexo, responderiam os mesmo lábios púrpura. Em mais sexo e de vez em quando de mão dada, diriam esperançosas as guerreiras. As outras diriam: em mais uma desilusão.
                                  Qualquer uma delas, o melhor que faria seria refugiar-se num quarto escuro e aquecido e procurar no próprio corpo o prazer que tudo apaga, que tudo esconde, que tudo ilude. Num esforço último para que que as derradeiras pétalas não caiam de velhas.


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                                    Sabia da utopia que sonhava real, do seu punho no ar enquanto no peito o coração lhe assalta o peito, sabia das suas mãos abertas e dos seus olhos grandes com o vermelho das bandeiras, sabia do que cantava, sabia do único ícone que aceitava, sabia daquilo em que acreditava.
                                    No pólo oposto olhava-a sarcástico, por vezes acutilante, por vezes divertido.
                                    Sem que lhes parecessem incontornáveis estas dificuldades, fazendo por ignorar outras, delinearam uma estrada por onde seguiram juntos, um na berma esquerda do caminho outro na direita, de mãos dadas, como deve ser, que afinal a liberdade é o bem maior.

                                    (De vez em quando ela olhava para trás, tropeçava, atrasando-lhe o passo.)





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                                      Mesmo que não sejam para mim. Mesmo que ninguém mos escreva. Quero acreditar. Que quem escreve amor o sente. Por alguém. Que há quem saiba que é para si. Que tenha como suas e como certas as palavras que depois outros lêem e apenas podem roubar, tomar como suas, usurpar.
                                      É preciso que haja quem seja amado para que todos os outros não morram.


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                                        Um dia ela falou-lhe da sensação de orgasmo que por vezes vem quando se chora. Ele não percebeu. Ele não é ela. Ninguém é ela. Por vezes nem ela própria. Mas quando é, e quando chora, por vezes nas mãos anuncia-se o orgasmo. Enganador, bem o sabe. Mas é.


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                                          O arrepio no final do orgasmo. Cada poro respondendo ao prazer. Cada poro libertando gozo. Puro. O arrepio que eriça os pelos. Que faz doer os mamilos. Que contrai. Como se nada mais existisse. Como se nada tivesse existido antes. Nem fosse existir depois. Puro. O orgasmo.


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                                            Sempre às voltas, segreda-lhe ela, já não sabes onde começaste, não sabes onde queres parar. Sossega um pouco, mulher, respira fundo, fecha os olhos e sente o teu corpo, lembra-te de como é bom, de como te faz sentir segura. Estás tão zonza que já não sabes onde moras, onde pertences. Sim, sei que duvidas que pertenças a algum sítio, mas todas nós pertencemos, nem que seja à loucura ou à solidão.


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                                              A manhã chegava, o sol ao fundo, baixo ainda. Sentada na cadeira da varanda do hotel, enrolada numa manta grossa, ela olhava o mar tão perto que quase lhe tocava. Embalada pelo vai e vem das ondas mansas, o cigarro quase no fim, ela voltou a cabeça para o quarto onde ainda dormia o homem. A cama estava desfeita, as roupas dele penduradas na cadeira, as dela espalhadas pelo chão. No seu corpo, nas suas mãos, no seu cabelo, a mulher sentia ainda a presença física do homem que ainda dormia.
                                              Tentou lembrar-se da última vez que se sentira assim, sem que nada num homem a incomodasse, nem o seu ressonar, nem o sono fácil, nem o cheiro, nem a voz, nem as palavras, nem a presença de manhã, nem o penteado, nem o pijama.
                                              Não conseguiu lembrar-se. Fora, com certeza, noutra vida. Talvez, com sorte, noutra mulher.


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                                                É o tempo a rir-se de mim, da minha aflição, da minha impotência ao vê-lo passar por mim, de dedos estendidos sem lhe conseguir tocar. Ri-se de mim, o cabrão, e com razão. Sabe que durante anos fui eu que o ignorei, como se ele na verdade não passasse, como se me pudesse dar ao luxo de encalhar em cada obstáculo e deixar-me ficar a patinar, como se fosse um brinquedo chinês, sem avançar, sem recuar.
                                                Ri-se de mim quando ao espelho faço o jogo do "descubra as diferenças" entre o antes e o agora. Ri-se ainda quando faço contas à vida e concluo que não o ignorei, quando pensava que o fazia, o que fiz foi perdê-lo. Ri-se o cabrão e segreda-me: Assim como me foste perdendo a mim, Rosa, assim perdes tudo o resto que te calha, como na alegoria da areia, apertas demais, soltas demais, nunca o meio termo, Rosa, nunca o meio termo. Não avanças nem recuas, ficas às voltas até ficares tão tonta que já não consegues pensar, que já não consegues decidir-te.
                                                Agora, Rosa querida, sou eu que te digo: vai-te foder.


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                                                  É um dos muitos momentos de insónia nas minhas noites. Acordada, dou ainda duas ou três voltas na cama, esperando que o sono tenha ficado por perto para que o possa agarrar ainda com as pontas dos dedos. Mas não. Como noutras noites, tinha saído a galope, fugido de mim como eu mesma tantas vezes faço.
                                                  Acordada, a noite ainda a meio, procuro não me angustiar com as horas de vigília forçada. O meu corpo está quente, entre os lençóis. Sabem-me bem as minhas mãos na pele amaciada pela cama. Toco-me devagar com o sorriso escondido que me dá a certeza de ser eu mesma a minha melhor amante. Surpreendo-me escondendo entre as pernas a minha mão direita, fazendo-a entrar por entre as cuecas, tocando-me primeiro devagar, depois mais assertiva. A minha mão esquerda desvia as alças do top, fá-lo descer um pouco e afaga e esmaga e aperta e celebra como nunca ninguém saberá fazer, as minhas mamas pequenas, quentes e macias.

                                                  Venho-me. Para mim apenas. Sem fantasias outras que me distraiam, que repartam o mérito deste orgasmo solitário com que encho a insónia e os sentidos.

                                                  Levanto-me para fumar um cigarro, na janela de outro quarto que não aquele onde durmo, do quarto onde guardo o computador, os discos antigos, outros pedaços de vida e de história. O computador avisa-me da chegada de novo email. Vou espreitar. Do outro lado da noite chega-me este pedaço de ti. Abro a foto e a minha boca ainda encortiçada pelo orgasmo recente, começa lentamente a encher-se de saliva, uma saliva grossa, a do desejo. E imagino, quase sinto, esta tua carne, este teu sangue na minha boca, a minha lingua passando arrastando a pele, descobrindo a tua maior sensibilidade, os meus dedos na tua boca, procurando e encontrando suavemente a tua lingua. Olho para a foto que me enviaste e este pedaço de ti, esta virilidade a preto e branco é tão real que a minha boca está cheia de ti, que te sinto os impulsos, que te sinto contra a minha garganta, que sinto a minha lingua envolvendo-te, quente, tão quente tu, desse lado da noite.

                                                  Depois, de olhos fechados como se viesse o sono, fico a degustar o sabor do esperma que não me deixaste na boca, mas que podias ter deixado, se o teu lado da noite e o meu lado da noite fossem, esta noite, o mesmo.


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                                                    Já conheci quem, por motivos seus, não gostasse de foder pela manhã.
                                                    Já conheci quem, por motivos seus, não gostasse de foder à tarde.
                                                    Já conheci quem, por motivos seus, não gostasse de foder antes de dormir.
                                                    Já conheci quem, por motivos seus, não gostasse de ser acordado a meio da noite para foder.

                                                    Depois, conheci-te a ti.


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                                                      Lembras-te de quando há muitos anos fomos à praia, num dia frio como o de hoje, cada um fugindo aos seus compromissos, enlaçando as mãos geladas, as minhas nas tuas, escondendo-as depois na nuca um do outro, à procura de calor, correndo na água, os salpicos, tu com os teus ténis e as minhas botas na mão, eu a desviar, a cada minuto, os cabelos dos olhos.
                                                      Foi há muitos anos, tantos que, à distância, parecemos outros. Agora ao ver a tua barriga, as rugas no canto dos meus olhos, as histórias desencantadas que fomos vivendo, parecemos outros.
                                                      Quando eu sobre ti e depois tu sobre mim alegremente ríamos e fundíamos os nossos jovens e desempoeirados corpos, sem expectativas, sem passado nem futuro, sem amarguras nossas ou de outros, o mundo era todo uma praia ou uma seara.
                                                      E eu amei-te tão alegremente que hoje só ao segundo olhar me reconheces.
                                                      Não pareces outra, dizes-me, deixando adivinhar o resto da frase.


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                                                        Colhes uma rosa no caminho.
                                                        Sentes-lhe o perfume ou foges dos seus espinhos?


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                                                          Pelo que consegue ainda recordar este meu cérebro cansado de tantas insónias e outros atropelos, somos capazes de ouvir, numa fase na nossa vida, uma qualquer frase e passar-lhe ao lado, e noutra acharmos que foi a pior coisa que já nos disseram.
                                                          Eu tenho uma colecção de piores coisas que já me disseram. Uma colecção que guardo, estimo e cuido como se fossem peças de museu.
                                                          De vez em quando a colecção ganha mais um elemento. Mais uma palavra, uma frase ou uma expressão que vou rodando nos dedos, a cada minuto, durante muito tempo, até que, por fim, consigo libertá-la das mãos e pousá-la na prateleira, junto às outras.
                                                          Solução de compromisso. Solução de compromisso. Solução de compromisso.
                                                          Antes de a libertar, tento encontrar-lhe préstimo, como quando me deixava ficar debaixo de um homem que já não me dava tusa, só para não ter de lho dizer.
                                                          Solução de compromisso.
                                                          Solução de compromisso é como orgasmo fingido, verdade adiada.
                                                          Puta que me pariu a vida.


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                                                            Conduzi a tua mão desde a minha boca, onde me pedias beijos, até ao meu umbigo e aí a deixei, a ver, só a ver se lhe apetecia encontrar o resto do caminho sozinha.
                                                            Deitada sobre os lençóis brancos, ainda fiz escorregar o corpo ligeiramente para cima, na esperança de que a tua mão percebesse que se devia deixar ficar, indicando-lhe o caminho.
                                                            Mas não. A tua mão perdeu-se em carícias distraídas na pele da minha barriga, como quem faz isso todos os dias e já nem repara ao que vai.
                                                            Depois, o peso das horas, dos dias, das semanas, trouxe o sono, o teu sono. Senti-te dormir, sossegado, quieto, confiante, alheio, enquanto de costas para ti, sentada à janela, enrolada numa velha manta de viagem, fumei mais um culpado, amargo, pesado, cansado cigarro.
                                                            (Como eu queria, meu querido, a leveza que perdi noutros dias, para me deixar ficar, sem sobressaltos.)



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                                                              “Um dia, já eu era velha”, quando já precisava de descansar em cada esquina do dia, antes de seguir o caminho, os meus sentidos tropeçaram nela.
                                                              O que se diz por aí das mulheres apaixonadas? Que são mais atentas? Mais palermas? Mais intuitivas?
                                                              Mais do que perceber-lhe as formas, a cor do cabelo, o jeito das mãos, senti-lhe o cheiro e distrai-me com o som do vento a passar pelos seus cabelos.
                                                              Mentalmente, como me habituei a certos diálogos, disse-lhe que gostava que fosse minha. “Tua amiga? Tua amante? Tua irmã?”
                                                              Apenas minha. Como se fosse o que fui perdendo de mim e que em certas manhãs de frio, afinal, me faz falta.
                                                              “Estás apaixonada?”, perguntou-me ela. Mas o meu tempo de descanso na esquina do dia tinha já chegado ao fim e eu tive que seguir caminho, sem lhe poder responder.
                                                              Mais tarde no dia, como tantas, tantas vezes, havia de lamentar a minha pressa.



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                                                                Tresandava a pretexto, pensava eu enquanto no elevador ajeitava o cabelo e a gola do casaco. Ainda assim, quando me abriu a porta, disse-lhe ao que ia: buscar o que era meu, ainda que tivesse sido também seu, de algum modo.
                                                                Entrei, deixando atrás de mim o seu sorriso iluminado de olhos verdes, escuros e inquietantes. Quantas vezes tinha eu já cruzado aquela porta? Algumas vezes com pretextos como o de hoje, fazia parte do jogo; como fazê-lo acreditar que agora era apenas para ir buscar aquilo que tanto gostara de guardar para si, mas que era brinquedo meu?
                                                                Sentei-me no sofá, querendo mostrar que estava segura. Cruzei as pernas quando me olhou, tentando não pensar que ele sabia que os seus olhos, aquela espécie de sorriso, a voz, as mãos, as velhas jeans me excitavam mais do que o que tinha ido buscar, tentando não lembrar as horas, tantas em tantos anos, que ali tinha passado.
                                                                Como em tantos outros jogos com ele, este começou assim: a medir forças.


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