É provavelmente o que de mais parecido tenho com uma superstição: tendo a acreditar que a forma como entro um novo ano terá influência na forma como ele decorrerá.
Nem sempre isto se comprova, evidentemente, mas tendo a acreditar que um bom começo é meio caminho andado.
Já deixei anos velhos e entrei em anos novos de tantas formas diferentes e com tantas pessoas diferentes que, forçosamente, associo esses primeiros minutos, essa quase esperança, ao que de bom e de mau depois me foi acontecendo.
Este ano que agora acaba, vou deixá-lo de uma forma inédita.
Com cuecas azuis a estrear ou não, o novo ano será, terá de ser, para o bem ou para o mal, um ano de mudança.


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    Morreste-me amiga, e eu não sei fazer-te um epitáfio, não sei sequer despedir-me de ti.
    Celebro a tua amizade, a cumplicidade, os risos, tantos, tantos, as confidências de adolescentes mesmo sendo mulheres feitas, desfeitas e depois refeitas.
    Fico a lembrar-me de quando te punhas a falar francês e a idealizar a tua união com ele, o vestido que usarias, o chapéu, o meu, de dama de honor. Zanguei-me contigo por continuares a amar um homem que não terias mais do que em fodas pontuais. Mas tu explicavas-me que era mais do que isso, tu vias mais do que isso. E eu não percebia que essa ilusão te dava força, te deixava seguir em frente, ainda que com os olhos e o peito no passado.
    As tuas dietas para caberes dentro da lingerie que compravas e que eu achava brega. O teu desespero a seguir quando te perdias no leite condensado e já nada parecia interessar-te.
    Agora tudo isso acabou. Já não terei mais o teu riso, a tua gargalhada, e a primeira imagem que me surge é a dos teus últimos dias, quando os teus olhos já não tinham força para brilhar.
    Morreste-me hoje amiga e fica a faltar-me o ar que respiravas.


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      Às vezes com o Vítor também era assim. Tanta confiança, tanta segurança a encherem-me de nervoso miudinho e a dar-me ganas de deitar todas as suas certezas por terra.

      Dessas vezes, vestia-me a seu gosto, deixava-o de boca bem cheia de água, de corpo bem cheio de tesão e saía sozinha.

      Fazia de cada homem que não me desagradasse um ataque às certezas que nunca seriam as minhas; de cada copo bebido entre sorrisos e trejeitos de sedução barata, de cada foda fortuita, um dedo em riste espetado em frente dos seus olhos como se lhe dissesse: Não te dás todo, não me terás toda.

      No momento, enquanto ajeitava a roupa e compunha o bâton, era como se fosse verdade. Mas no regresso, a nudez era a de sempre. E no meu sono desassossegado, era outra a mulher para quem ele sorria, com quem dançava entre sorrisos, a quem desviava madeixas teimosas do rosto, com quem brindava a muitos momentos felizes.

      Às vezes com o Vítor também era assim.


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        A chuva fixou-se
        nos meus cabelos pintados
        roubando-lhes o falso brilho.
        Colou-me a blusa à pele
        evidenciando-me os mamilos
        e deixando claro
        o tímido volume das minhas mamas.
        Escorreu-me pela cara
        lavando a maquilhagem que tenta esconder
        rugas e olheiras.
        Ajustou-me as calças
        acentuando o contorno já não tão redondo
        do meu rabo.
        Ainda assim, senti-me bonita.
        Ainda assim,
        na rua onde ninguém vai,
        despi a roupa molhada
        deixando apenas ficar as botas
        que disfarçam o tamanho dos meus pés,
        e dancei.
        Ainda assim,
        de olhos fechados,
        imaginei-me uma mulher bonita fotografada em Paris,
        a preto e branco.


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          Não compliquemos: Para que haja vontade de foder qualquer outro homem, bastam as emoções mais básicas.
          Básicas?, perguntei-lhe eu. Básicas: despeito e ciúme. Em último caso o medo.
          O medo?, voltei eu a perguntar. O medo, confirmou-me. O ataque como melhor defesa.
          E depois?, perguntei ainda. Depois, respondeu, lavas os dentes ou bebes vodka, verás que o amargo de boca fica disfarçado.
          Disfarçado?, perguntei baixinho. Disfarçado, explicou, indistinto, acima de tudo indistinto.


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            Fel. Ao fel junto algum ressentimento. Os infalíveis sangue, suor e lágrimas não poderão faltar. Amacio com saliva, dessa espessa que engrossa no desejo. Para amenizar, aromatizo com a enjoativa baunilha do creme que alguém me deu e que nunca uso.
            Espalho este bálsamo pelo teu corpo adormecido no sono de quem não teme perder seja o que for porque sabe que outro dia trará outros sóis.
            Provo do meu próprio veneno enquanto relembro Shakespeare (ressentimento é tomar veneno e esperar que outro morra), lambo os dedos e os lábios.
            Tu mexes-te um pouco na cama, deixas descobertas as costas. As minhas mãos são punhais mas não tas cravo. Continuo a espalhar a massa densa que deixei cozinhar em lume brando, na tua pele.
            Sei que quando acordares te irás embora. Se não fosse por isto, seria por outra coisa qualquer, antecipemos o anunciado.


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              Quantos homens te amaram tanto como eu?, perguntas-me.
              Eu, calada, não sei que palavras existem para te poder responder com verdade. Calada, sinto-me a um tempo uma adolescente tola perante a sua primeira paixão e uma mulher madura com o medo que nos traz a vivência.

              Quantas vezes te deram a mão no momento em que a negrura das profundezas de ti te sugava o sorriso e a alma?, perguntas-me.
              Eu, calada, não consigo lembrar-me de um porto que fosse de abrigo, de um peito onde estivesse em casa. Calada, espanto-me ainda com os caminhos que me trouxeram a ti.

              Há quanto tempo não escrevias sobre amor?, perguntas-me.
              Eu, calada, não sei como dizer-te que nunca o soube fazer. Calada, não te explico como tudo isto é tão absolutamente novo e claro.

              E é nesses silêncios que o meu medo maior, mesmo com a tua mão na minha, espreita desenhando a ausência depois de ti, depois da finitude inexorável de todas as coisas.


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