A noite ia fria e ainda pela metade quando acordei, o corpo a pedir-me não sei bem o quê.
Levantei-me e experimentei um cigarro, enrolada na manta, à janela. Não bastou.
Fui até à cozinha e com um garfo fui comendo marmelada, directamente da caixinha, enquanto ia distraidamente saltando os canais da televisão.
Ainda vazia, voltei para a cama. Para afugentar o frio, encostei-me a ti, ao teu corpo quente e adormecido. Colei-me a ti procurando calor e o que primeiro encontrei foi o teu pénis, quente e húmido, descansadamente adormecido sobre a tua perna. A minha mão fria rapidamente o sobressaltou. Sosseguei-o com o calor da minha boca de hálito doce. Não parei quando te mexeste um pouco, nem sequer quando gemeste, e escondida debaixo dos lençóis, deixei que te viesses, dormente, na minha boca e assim a deixasses mais doce para o beijo de boa noite.


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    É como se soubesses desde sempre como gosto e como quero que me sugues, mordas e beijes os mamilos, que me apertes as mamas que cabem certinhas nas tuas mãos. Que não te canses e que durante horas me deixes no limbo do orgasmo.





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      É este o frio de que te falava, aquele em cujas noites fazes ainda mais falta na minha cama. O frio que afugentas de mim quando a tua língua na minha pele deixa um rasto de arrepio, um arrepio que não é já de frio mas de prazer puro que, aos poucos, se transforma em antecipação de um outro prazer, diferente mas igualmente intenso e completo; o prazer que se continua quando mergulho dentro dos lençóis que entretanto aquecem com o calor dos nossos corpos, e nesse mergulho encontro o teu pénis e é então ele que mergulha na minha boca e aí se vem.


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        É esta a clandestinidade, a nossa, dos amantes que o Eugénio não cantou. Quem nos cantou? Quem cantou os amantes maduros, os que voltam no final do dia para as suas casas confortáveis, que se levantam de manhã para um trabalho exigente, que almoçam falando de negócios, de trabalho?

        Quem nos foi explicando, em toda a poesia que lemos, em todos os romances, até mesmo nos filmes, como se abre os braços aos dias novos?


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          Disseram-me um dia que isto me mataria, isto de querer a alma dos outros.
          Não lhes quero a alma. Mas quero-lhes a essência, a disponibilidade, o interesse, o tempo,
          a entrega, a honestidade total.
          E que dou eu?, perguntaram-me quando me disseram que queria a alma dos outros.
          Eu já não dou, numa primeira instância. Vou espreitando primeiro, vou dando à medida do que recebo, e mesmo assim tantas vezes dou demais.
          Onde o equilíbrio? Onde a serenidade? Na primeira das sucessivas camadas de desencanto? Pelo contrário, nas camas pontuais?
          Onde, se já não sou pássaro?


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            (ainda)
            Não é que, literalmente, as escreva, emoldure e pendure ao peito. Nada disso. As palavras, as bonitas que guardamos, estão gravadas na memória, leve e indelevelmente.
            Homens, que também para eles tenho vivido, que souberam, não muitos, mas os suficientes, deixar-me palavras que passados tantos anos não esqueço.
            Há quem diga que palavras leva-as o vento, como se se desculpasse de não as dizer, como se fosse fraqueza colocar-se ao nível de outros homens que as dizem. Há quem diga que prefere os actos, ainda que deles nunca tenha sido capaz. Há quem fale, fale, fale e nunca chegue a dizer o que importa.
            Depois, passadas e enterradas as mágoas, é o que resta da história, essas palavras que podíamos pendurar ao peito se quiséssemos. Dos que não as disseram, nada resta.


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              Acendo
              um
              cigarro
              como
              quem
              acende
              estrelas
              e
              espero
              por
              ti
              na
              varanda
              de
              chão
              quente
              num
              outono
              que
              se
              demora
              como
              a
              tua
              boca
              na
              minha.


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                Há homens que passam por nós sem que nos deixem uma só frase bonita para emoldurarmos e pendurarmos no peito.


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                  Às vezes, no meio de um estado que cremos de felicidade, vem-nos a tristeza, anunciando-se como orgasmo em noites de inverno. Uma tristeza que encerra em si uma certa forma de angústia, uma certa forma de solidão.
                  É mesmo assim. Um espécie de anti-clímax, de equilíbrio, ou até mesmo de desequilíbrio, que vai mantendo alguma ordem no caos.
                  Às vezes vem essa tristeza que, anunciando-se como orgasmo, o impede como se fosse quase sacrilégio vir-me estando tão triste. Nesses dias, nessas noites em que a tristeza vem, digo-te enquanto o teu corpo se embala sobre o meu: “Hoje não me venho.” E tu fazes descair o teu peito sobre o meu, beijas-me devagar, desvias-me o cabelo desalinhado da cara e fazes amor comigo sem também te vires.
                  Às vezes é preciso que venha essa tristeza para que me assegure do quanto te amo, do quanto me amas.
                  Às vezes os sorrisos com lágrimas e com a tua saliva quente e espessa de desejo são a minha casa e adormeço sossegada no teu peito, amparada pelos teus braços.
                  Contigo não me falta o ar. Com a firmeza com que me seguras não chego a perder-me, a afogar-me no poço da tristeza em que nasci.
                  Às vezes a tristeza é um cobertor e tu aconchegas-me nele, afagando-me a pele fria e arrepiada e, por momentos, mesmo triste, perco o medo.


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                    Queria ter as mãos dessas mulheres que escrevem as ondas que te embalam, que te movem. A voz dessas mulheres que dizem e cantam o que eu não sei.
                    Queria ter o corpo dessas mulheres que olhas na rua e te fazem brilhar e mexer inquieto na cadeira.
                    Só me tenho a mim. Não tenho mais para te dar, apenas este esboço de mulher inacabada, inquieta, imperfeita. Pouco, muito pouco para o oceano que te banha os olhos.
                    Tenho estas mãos que tremem quando as seguras, estes olhos que querem fugir para longe quando os fitas, este corpo que se sente amedrontado quando te colas a ele.
                    Tenho esta voz que vacila antes de te dizer do amor, esta voz desafinada que não pertence nem a mulher fortaleza nem a menina de tranças.
                    Só me tenho a mim para te dar e não sei quem sou, não sei quem prevalece neste misto de mulheres em que me tornei.
                    Apetece-me perguntar-te: se tiver medo, dás-me a mão? Mas sei que me responderias que sim, e tenho medo dessa resposta. Que saberei eu fazer com a tua mão, com o teu amor? Como aprenderei a despir-me, despir-me de verdade, perante ti, homem que encontrei quando já nem a mim procurava?


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                      Tenho o girasol na minha janela. Tenho a almofada ainda com a tua marca. Tenho o amor que me escreveste para que não esqueça o que me disseste. Tenho os lábios em ferida. Tenho o teu perfume na minha pele. Tenho este livro de poemas que me deste, e que me lês como se fossem meus, em cima da cama.

                      Saíste apenas hoje de manhã. E este apenas é uma eternidade longa demais para o quanto te quero.

                      Olho gulosa para a caixa de chocolates que me trouxeste dessa tua primeira ausência e não ouso tocar-lhes; como se por cada um que comesse fosse minando o tempo que nos resta. É que, sabes?, a finitude começa no início.

                      Depois de um caminho feito de perdas, agora faço amor, agora dou-me e recebo-te, agora não me importo que as cartas de amor sejam ridículas. E mostro-te, a ti, as minhas fraquezas desmascaradas. E dispo-me para ti como para ninguém antes. Resgataste-me de um passado atroz. E também por isso te amo.


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