Quando alguém nos fala em retorno, fala-nos em voltar a qualquer coisa passada, emoções passadas, lugares passados. Como se fosse possível fazê-lo, como se quiséssemos fazê-lo.

O caminho faz-se caminhando, relembras-me tu, enquanto as tuas mãos parecem apoiar-se lentamente nas minhas costas. Mas então percebo: não se apoiam, apoiam-me, amparam-me, chegam mesmo a fazer uma leve pressão para que caminhando eu vá fazendo o meu caminho.

E explicas-me baixinho, nessa voz sussurrada que usas não quando me fodes, mas quando fazemos amor, que existem mapas de onde podemos ir excluindo os caminhos errados e apontar a rota do caminho novo.

Faço este caminho, mil vezes renascida.


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    Sei que me lês como se de facto te escrevesse. Mas escuta, não é bom que leves tudo à letra. Que me mimes quando menos espero. Que me fodas incansavelmente. Que me olhes antes de eu acordar. Que me dês a flor que eu gosto. Que te rias com olhos brilhantes. Que me desejes a qualquer hora do dia, da noite e mo digas e te venhas juntinho ao meu ouvido, aí longe. Não é bom que sejas tão atencioso comigo. Que tenhamos esta sintonia assustadora. Que partilhes comigo o que te faz viver. Que conheçamos e amemos as mesmas músicas, os mesmos livros. Que me leias poemas de amor quando estamos nus e suados, na cama.


    Não é bom. Arriscas-te a que me apaixone por ti.


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      Gosto disso. Quando te vens à distância, sozinho, e sentes a falta da minha língua na pele da tua barriga para beber todo o esperma que não entrou em mim.


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        Asa esquerda e asa direita, disseste tu. E eu repito-te. Como se me forçasse a acreditar que só assim se faz o voo.

        Rio-me. Digo-te que preciso da tua asa direita para equilibrar a minha asa esquerda, como se precisa da fealdade para realçar a beleza.

        Porém, não era preciso que me risse. A tua asa direita chega-se a mim e envolve-se na minha asa esquerda; a minha asa esquerda chega de mansinho e insinua-se na tua asa direita.

        Podemos então rir os dois das caras de espanto com que nos olham os que não percebem como equilibramos este voo.

        E é para a cama onde nos deitamos que levamos as diferenças e as semelhanças e dela, dessa cama que é a nossa, fazemos uma casa.



        "São asas. Que só duas fazem voo."



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          Dantes o Vítor chegava sempre com uma surpresa. Um presente, uma ideia para uma viagem ou apenas as vinte e quatro horas para mim.
          Porque era o meu aniversário oferecia-se a mim como em nenhum outro dia. Dizia ele que era a forma de me mostrar o quanto me queria.
          Eu acreditava porque tê-lo assim inteiro, nem que fosse por um dia, alimentava-me o coração, que o corpo, esse, nunca o descurei.
          Depois o Vítor partiu. E com ele foi um pedaço de mim.
          Agora, no dia do meu aniversário, fechada numa concha, longe de casa, telemóvel desligado, visto-me de outra mulher e esqueço-me que os anos se somam, que os dias se somam, e como animal selvagem, parto à conquista de uma presa fácil, que não quero perder tempo.


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            Uma janela, dois bancos conversadores, uma noite quente em fim de verão e o luar são evidências. Vulgaridades.

            Contudo, não é preciso mais.

            Com tão pouco um homem e uma mulher se podem olhar e depois ver. Iguais a tantos outros antes deles.



            Le soleil est venu
            Et reparti cent mille fois
            Depuis le jour du premier jour
            Du premier amour
            Le premier amour du monde
            Le premier amour du monde?
            C'était... quand?
            Et d'abord, comment se sont retrouvés
            Comment se sont retrouvés
            Le Ciel et l'Océan?
            Il a pris sa main sans le savoir
            Sans savoir où les menait la peur du premier soir
            Il a pris son corps contre le sien
            Sans savoir qu'un deuxième matin
            Renaîtrait des cendres du premier matin
            Ils ne savaient pas que d'autres jours
            Suivraient le premier jour
            Ils ne savaient pas que la naissance
            La naissance engendre la vie
            Et d'abord comment pouvaient-ils savoir
            Comment pouvaient-ils savoir
            Puisque les mots n'existaient pas
            Puisque les mots n'existaient pas
            Comment pouvaient-ils savoir
            Que l'Amour s'appellerait l'Amour?
            Ils ne savaient pas qu'ils inventaient
            La vie et la mort et la lumière du mois de mai
            Ils ne savaient pas que leurs enfants
            Peupleraient la terre d'autres enfants
            Ni que leurs coeurs allaient faire marcher le temps
            Et ce soir en marchant
            En marchant à contretemps de nos vingt ans
            Nous faisons ce qu'ont fait longtemps
            Longtemps des millions d'amants
            Et je prie en pensant
            A ce premier amour du monde
            Que jamais ne vienne le jour
            Du dernier amour
            (por SERGE REGGIANI)


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              intermezzo II (de outubros outrora negros)


              Prefiro a chuva a estes dias neutros, frios mas não muito, quase chuvosos, quase cinzentos, moribundos, impessoais, inqualificáveis de Outubro.
              São dias deprimentes como o silêncio, como a tristeza, como o abandono sem, todavia, serem mudos, tristes ou solitários. As mãos arrefecem-nos o corpo, por contágio. O pensamento gela, expectante, algures entre o cérebro e o coração, entre a dúvida e a certeza, entre o choro e o riso, o silêncio e o grito, a vida e a morte.
              Dias de Outubro, quase frios, quase noites. Dias de solidão quase indelével, quase suportável, quase aceitável, quase confortável. Dias de olhar pela janela sem ver nada, sem sentir, dias de nudez inigualável, de sentidos adormecidos, de olhos secos e língua áspera.
              Não é o frio, nem o desconforto que me incomodam. É a aproximação a qualquer coisa, sem que chegue a ser coisa alguma. Não é a neutralidade que me conforta, é a dor, a certeza de que ainda não morri.
              Outubro traz-me o cheiro da morte, esse cheiro que se reconhece sem se ter alguma vez conhecido; a morte, uma vez mais, envolta em contra-senso.
              Outubro traz-me memórias embolorecidas de fotografias antigas, de risos esquecidos, de gestos parados, de aniversários celebrados sem alegria, dos primeiros dias de uma escola austera, onde pululam desconhecidos, onde ninguém dá por nós senão para nos puxarem os cabelos, cuidadosamente presos com uma fita de cetim lilás, celebrando uma morte ainda desconhecida, sempre reconhecida.
              Outubro tem o cheiro desconfortável dos pescadores de mãos grossas, tristes, entre redes por remendar e pequenos navios friorentos.
              Outubro tem a aflição e o desconforto do primeiro cigarro, também ele solitário, sempre com o encolhido rio por perto. Sempre um rio, raras vezes a largueza do mar.
              Outubro tem o saboroso cheiro das castanhas assadas, mas a desagradável lembrança de uma despedida, a despedida de um estranho que me fez gostar do sabor dessas castanhas, por as ter partilhado comigo, na espera de um barco solitário, num dia igual a este, um estranho que levou nessa despedida toda a minha inocência, numa história tão marcante que nunca precisei de a contar. A quem a contarei agora? A quem contarei desse homem que encontrei no início da minha juventude, quando a solidão me assentava já tão bem, quando as caminhadas já se sucediam, boca cerrada e olhar firme, rompendo caminho por entre as pessoas apressadas e desatentas? A quem contarei as histórias de liberdade, em que um homem se faz homem, em que um homem aprende a chorar calado, aprende a gritar calado, aprende a amar calado?
              A quem contarei, agora que estou quase morta, nestes dias quase mortos, a história desse homem que encontrei vagueando entre navios fantasma, que me confundiu a mim própria com um fantasma, desenganando-se apenas quando a minha profunda tristeza o assustou, de tão viva?
              A quem contarei a história desse homem, acordando-me para o meu próprio egoísmo, falando-me da sua história de homem morto numa cidade de fantasmas, da sua morte prematura, prometida pelos carrascos que lhe arrancaram dos olhos a luz, arrancando-lhe da vida a mulher que amava, em nome da sordidez de um país, de um regime contra a qual lutavam nesse amor que lhes dava cor e luz?
              A quem falarei agora do abanão que me deu a sua voz enquanto me falava a mim, uma adolescente perdida, como agora, nos nós do seu próprio umbigo, falando-me de valores maiores do que a própria vida, falando-me da grandeza dos homens que eu apenas conhecia dos livros, de quem nunca tinha visto os olhos magoados, as mãos, essas sim, abandonadas, numa solidão que se debatia entre a perda da mulher que amou e que perdeu, e a conquista da liberdade por que lutaram?
              Os dias de Outubro trazem-me sabores amargos, as castanhas assadas trazem-me à boca, a um tempo, conforto e desconforto, ganhos e perdas, o sim e o não, todas as contradições.
              Sangram os meus lábios e são os pássaros que estão feridos. É um sangue doce, quente e espesso que me escorre pela comissura dos lábios e me queima a pele como lava de um vulcão milenar, ainda a despertar, ainda sonolento.
              Saio para a rua com estes rios de lava a escorrerem lentamente pelo meu pescoço, a desembocarem no mar morto que é o meu peito, os óculos escuros a escudarem-me de uma realidade menos brutal do que se suporia, que os tolos são inofensivos.
              A mão que trago guardada no bolso brinca com as chaves presas num aro único de metal, a outra mão vai desviando o cabelo vermelho da face branca, tão branca, fria e aparentemente serena. Caminho devagar, dificilmente equilibrada, que este modo de caminhar não me é familiar. Fumo um charro em mortalha azul, enquanto caminho por entre homens e mulheres pequeninos que vejo azuis e vejo-me, de cima, da minha própria janela, mancha vermelha e negra caminhando devagar por entre um todo azul que se movimenta incerto, impreciso e difuso.


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                intermezzo I (de outros outubros)


                Não é todos os dias que me deito com um corsário. Não será hoje, também. Não é ele. Os vultos são todos iguais, os homens também, mais ainda se forem do mar. Já o mar não é de pedra, e os marinheiros são apenas carne. Carne que se sacia em cada porto, sem exigência objectiva de putas, princesas ou sereias.
                Este marinheiro atira o cigarro para o rio com um estudado gesto de dedos, gira apenas o tronco na minha direcção e lança-me um olhar de sedução. Sinto-lhe o cheiro, agora que estou tão perto. Cheira a suor e a canja de galinha, como os homens nos meus piores pesadelos de adolescente. O casaco cheira a óleo, melhor, a bafio de navio precário. Peço-lhe um cigarro. Estende-mo aceso, acende-o olhando-me sobre ele, sorrindo ainda. Sorrio-lhe e ele não percebe que só não me desagrada porque me é indiferente.
                As noites frias de Outubro deprimem-me mais do que quaisquer outras. Desaperto a minha blusa, nunca deixando de o fitar. Guio-lhe a mão ao meu peito, a sua mão está fria, é grossa. Com a outra mão desaperto-lhe as calças. Não o deixo beijar-me, puta que sou. Força-me a baixar-me e lambo-lhe levemente o sexo, primeiro, depois mais depressa, finalmente com violência. Mordo-o. Afasta-me e bate-me com força na cara. Solto uma gargalhada e levanto a saia, mostrando-lhe a brancura e a nudez escondida. Bate-me na cara, novamente, ainda não lhe ouvi a voz, só a ouvirei quando me chamar puta, repetidas vezes, enquanto me fode, depois de me voltar de costas para si e de me encostar ao ferro gelado que nos protege do rio. Fode-me por trás, com urgência, agarrado aos meus flancos com tal violência que me rasga a pele das ancas. O sangue obriga as suas mãos a escorregarem na minha carne e passa a segurar-me nas mamas, puxando-me para si, obrigando-me à sua cadência de animal bruto, bestial. Vem-se enquanto me bate nas nádegas, enquanto urra, quase de dor. Afasta-se e eu deixo cair a saia, que me chega até aos pés.
                Sentamo-nos no chão frio e húmido. Acende mais dois cigarros, torna a estender-me um. Diz-me que o magoei e torna a chamar-me puta, agora com um sorriso. Pergunto-lhe se quer mais. Levanto a saia, novamente, sento-me sobre ele, enquanto fumo. Ele atira o seu cigarro para longe com o mesmo gesto artístico, estudado, apalpa-me as mamas, chupa-as, morde-as, puxa-as, violenta-as o mais que pode. Estende a língua, tenta beijar-me, esquece-se que sou uma puta, que não o beijarei. Continua a dedicar-se às minhas mamas que entram inteirinhas na sua boca de abutre, enquanto se masturba, com a mesma violência, com a mesma urgência. Puxa-me os cabelos, ordena-me que grite de dor, depois que gema, depois que lhe peça mais. A tudo obedeço, sou uma puta, estou ali para isso. Obrigo-o a penetrar-me e cavalgo-o com quanta força tenho, quero magoá-lo com os meus ossos, de todas as formas, já que a mim ninguém volta a magoar.
                Levanto-me rapidamente, depois de o fazer vir-se novamente, saio de cima dele, enquanto me escorre pelas pernas o esperma quente, espesso, impessoal de mais um homem, de mais um vadio homem do mar, de quem me servi para saber se estou viva, de quem me afasto, deixando-o sentado no chão manchado e molhado, sem o chegar a saber. A saia cai de novo sobre os meus pés. Sacudo o cabelo e sigo o meu caminho.
                Estar viva é, afinal, o quê? As sensações físicas? Os orgasmos? Os encontros fortuitos? Esta dor lancinante no meu peito? Não querer morrer? Querê-lo? Segui o caminho junto ao rio, subindo sempre até ao café do miradouro. Sentei-me, com sede, esquecida do frio da noite de Outubro que é esta.


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                  Nem sempre foi assim, expliquei-te eu enquanto me limpavas com a ponta do lençol.

                  Eu dantes não perdia tempo a pensar se acreditava ou não no que me diziam. Estava ali e era bom e isso bastava.

                  Mas os dias, os meses, os anos passaram e sem dar por isso fiquei com a pele do ventre mais flácida, as olheiras mais carregadas e a dúvida presente.

                  Quando paraste, por instantes de me limpar, e ficaste com o lençol suspenso da tua mão que tanto me ampara, com os teus olhos escuros e ao mesmo tempo tão claros, os teus olhos em mim, duvidei, por momentos, da minha própria dúvida.
                  Foi por isso que me debrucei sobre ti e te passei a língua nos lábios, como se lhes quisesse fixar a forma, como se quisesse neles gravar o meu hálito cansado. Foi por isso que te arranhei os ombros enquanto te fazia penetrar-me outra vez. Não foi uma foda, não foi fazer amor, foi apenas gravar-te.


                  E enquanto te gravava continuava a duvidar da minha dúvida e quis acreditar que me querias por mim, a mim.


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                    Zanguei-me contigo: nem sempre uma mulher gosta de gentilezas e palavras de amor. Eu, que sou muitas mulheres, como já sabias mesmo antes de me conheceres, gosto que chegues a casa e me fodas, sem sequer me dizeres olá, sem sequer quereres saber como foi o meu dia, sem que me contes do teu.

                    Gosto que me arranques do que quer que esteja a fazer e me mostres nessa foda repentina toda a urgência que te gerou a minha falta, que te venhas mesmo antes de eu começar a dar por isso, que esfregues por mim toda o teu esperma quente.


                    Gosto-te.


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                      Há feridas que não se vêem. A não ser se perante nós estiverem uns olhos já habituados a verem-se ao espelho e noutra pele reconheçam as suas.
                      Como tu comigo. Como tu quando me olhas, aparentemente distraída, aparentemente leve, e afinal contas cada cicatriz que disfarço sob camadas e camadas de maquilhagem.
                      Gosto de me deitar contigo, cada uma de nós encostada a um dos braços do sofá, as pernas enlaçadas para melhor caberem, o copo o o cigarro que vamos passando, da minha mão para a tua, da tua mão para a minha e mal nos tocamos.
                      Tu vês-me. E ouves-me. Dizes que os meus olhos falam. Dizes-me coisas bonitas. Fazes-me sentir coisas bonitas, fazes-me sentir bonita.
                      Deixo-me estar deitada, as minhas pernas nas tuas, o afago da tua pele sobre essas feridas que só tu vês, o cheiro do teu cabelo que aspiro levemente.
                      Há este amor. Simples. Apenas este amor.


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                        Um dia, talvez quando chegar o inverno, vou contar-te as minhas histórias. Com a tua ajuda. Escolhes uma das minhas rugas e começamos por aí. Primeiro as dos olhos. Depois aquelas duas que tenho no canto dos lábios e que me esmorecem a expressão quando não estou a sorrir. Depois, se quiseres, passamos para a flacidez da pele, e logo a seguir para os resultados da gravidade, de todo o peso que já carreguei nos ombros e no peito.
                        Despir-me-ei para ti. Toda.
                        Se quiseres, paramos um pouco e fazemos amor. Vai estar frio porque escolhi o inverno e vai apetecer-nos ficar na cama todo o dia, de janela fechada, arfantes por respirar o ar cansado e suado.
                        E se entretanto te apaixonares por mim, vou fingir que não reparo para não te constranger, e dou-te um beijo, desses inteiros que são teus, antes de adormecermos por instantes.


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                          Alguém me disse um dia, ou uma noite, não sei, sei que estávamos deitados numa cama que não era a minha e o calor desse corpo soube-me bem, que vivemos a nossa vida à procura de alguém que a viva connosco apenas pela necessidade de termos quem testemunhe a nossa passagem pelas horas.
                          Penso: é o amor um acto egoísta? Para nos servir mais do que para servir o outro? Se ele não me amar, se não se deslumbrar comigo, se não se lembrar de mim por cada rosa que vê, lembrar-me-ei eu dele quando a noite me mostra os seus olhos negros? Deslumbrar-me-ei? Amá-lo-ia se não soubesse que o nó também se ata no seu estômago?


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                            Cigarro após cigarro, vou consumindo a noite. A espera. A surpresa que é sentir a sua falta, mesmo com a armadura vestida.
                            São os beijos, com certeza. A foda completa, inteira, quase-quase verdadeira.
                            Asa esquerda e asa direita para juntas fazerem o voo equilibrado dos sentidos que se acordam e depois se saciam, quase assustados.
                            "Que este amor seja eterno enquanto dure."


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