Entrei na cidade já depois de o sol se pôr, mas pouco depois, de camisola preta, desnudados os ombros como se quisesse zombar deste outono que zomba de nós aquecendo-nos como no verão.
Tu esperavas-me desse outro lado do rio onde quase parece que o único calor provém de ti.
Sorriste-me mordendo os lábios e eu fui-me chegando a ti, desequilibrando-me nos meus saltos altos.
Levaste-me para tua casa e bebemos vinho. Fumei um cigarro apressado na tua varanda, enquanto esperavas por mim na tua cama.
Depois, de janela fechada, mascarámos de amor a foda urgente.



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    É tudo a fingir. É sempre tudo a fingir. Tu finges que és meu e eu finjo que sou tua, ambos fingimos que o mundo inteiro não importa perante a imensidão que é estarmos aqui, juntos; porque só assim, fingindo, podemos beijar-nos, como se fôssemos genuínos, como se o amor furtivo que fazemos fosse maior do que a casa onde nos escondemos, maior do que a cidade onde nos perdemos. É tudo a fingir, começámos por dizer nos pátios e quintais, em brincadeiras de criança, sem que pudéssemos saber que nos estávamos a amaldiçoar e que seria assim para o resto das nossas vidas, fingir para que pudéssemos beijar, foder e olhar quem se deitasse a nosso lado. É tudo a fingir, fingimos que não nos sentimos embaraçados por nos verem de mãos dadas na rua. Fingimos que não nos emocionamos com os dramas no cinema, que não nos dói quando nos arrancam pedaços do peito. Fingimos, abrimos o sorriso e a boca já pode dar-se num beijo, e o corpo já pode dar-se ao sexo fingindo que a primeira vez foi melhor do que o primeiro cigarro e que jurámos não repetir a coisa. Fingimos para que os passos continuem a levar-nos para a frente, para cima, para longe.
    Fingimos. Eu que sou tua e tu que és meu. E em mais um orgasmo fingimos que é possível a leveza. E abraçamo-nos depois.


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      Como a raposa no livro do príncipe que primeiro li em pequena, comecei calmamente a vestir o meu coração. A acalmá-lo, a sossegá-lo, a explicar-lhe que era apenas um fim de semana e que um homem é igual a outros homens. O coração, enquanto me vestia, ia contrapondo, que não, que não é bem assim, que me lembrasse do quanto procurei o Vítor e em nenhum outro homem o encontrei. Teimosa como sou, deixei o meu próprio coração a falar sozinho e passei a tratar do meu corpo. O banho demorado, a depilação cuidada, o hidratante cuidadosamente aplicado, o perfume dos dias que desejo bonitos, a lingerie escolhida para não ser demasiado óbvia, a roupa preta que me faz sentir em casa, onde quer que esteja.
      Vi-me ao espelho. Com o passar do tempo, vou dando por mim a lamentar que os homens que vou conhecendo não me tivessem conhecido quando era ainda firme, lisa, virgem de ressentimentos e desconfianças.
      Sacudi o cabelo como quem quer sacudir anos de peso e escolhi as botas. Agora sim, sou uma guerreira a postos, temerária, invencível.
      Os passos tremeram-me quando comecei a dirigir-me para a porta, quando iniciei o caminho que me levaria aos braços do homem, mas fingi que não reparava.
      Dele visualizava retalhos, as mãos (lembrava-me delas no meu peito tímido, nas minhas coxas, apertando-me as nádegas), os olhos (via-os brilhantes, na luz trémula do cais, embalados pelas ondas do rio), a voz (ouvia-o sussurrar-me o prazer, o desejo, a vontade e a surpresa), a nuca (sentia-lhe a pele quente e suada quando os meus beijos se iam afastando da boca e procuravam o outro todo que era o homem).
      Saí de casa deixando atrás de mim todas as imagens, memórias, histórias e desencantos.
      Aquele homem era agora, ele apenas, eu apenas, nada mais caberia na cama onde nos deitaríamos ansiosos, sedentos e surpreendidos. A noite, apenas essa. Sem pressas, sem planos, sem expectativas. O prazer. Puro. O prazer do sexo que aos poucos lhe ia descobrindo. O prazer dos risos leves. O prazer da sua pele na minha. O prazer que nos iluminará o sono, depois de cansados e saciados.
      Fechei a porta de casa e a farda de guerreira já me pesava.


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        Quase esquecida do ritual, saí do banho e parei em frente ao roupeiro. Hesitante, abri ainda a segunda gaveta da cómoda.
        Qualquer coisa que não denotasse ao primeiro assomo a cor da flor. Jeans nunca comprometem ninguém, ao invés dos vestidos pretos. Jeans, saltos altos, camisola inócua.
        Uma única nota dissonante, para mim mais do que para o homem com quem me encontraria junto ao rio, daí a pouco, o perfume, o meu, o da confiança em mim mesma.
        O riso. É bom o riso que nasce da empatia recente, da conversa que corre como água, do álcool que desinibe, da noite quente.
        O leve tremor com o primeiro toque, que se pretende casual mas que conhecemos de outras caminhadas. O corpo quente do homem que se vem chegando, tão óbvio na sua dissimulação, na aproximação que se permite porque sim.
        Os corpos que se inclinam para a frente no envolvimento de ideias, que nem só de carne se faz uma mulher, os pés nus na areia fria, o copo de cerveja que fica esquecido como testemunha dos beijos, das carícias, da sede.
        Depois a manhã, a sempre estranha manhã, o sempre corpo estranho que acorda ao nosso lado, mas que, em certos momentos, os tais em que a vida faz por nos compensar, minimiza a sua estranheza por ter um certo modo de dar os bons dias.
        As tréguas nas feridas maceradas uma e outra vez, na pele dorida e cansada, na saliva grossa, na ressaca de tantos anos.


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          Já não anseio por amor que o tempo das rosas frescas já passou. Mas prezo os dias. Os risos, os sorrisos, as mãos dadas. Os momentos ansiados porque deles nada se espera a não ser a sua própria momentaniedade, o tempo em que paramos, em que ficamos presos num nada e nesse nada somos livres.
          Com o tempo, o amor metamorfoseia-se em coisas tão pequenas que não entendemos como pudémos exigir tanto, outrora.
          Agora as rosas têm as pétalas mais espessas, mais aveludadas, mais resistentes. Menos frágeis. Menos meninas que cresceram e se esqueceram de deixar de acreditar em príncipes encantados.


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            Há uma frase feita que diz que há um momento, o momento, que marca o lugar onde a nossa história muda, onde nada voltará a ser o que era. Claro que essa frase feita consegue dizer isto em menos palavras, eu é que fui perdendo a capacidade de síntese juntamente com outras, como a de conseguir engolir os shots segurando no copo com os dedos do pé.
            Esse momento apanha-nos sempre de surpresa, nunca nos apanha prevenidos e muito menos receptíveis a ele, ao momento, ou a ela, à mudança.
            Durante algum tempo, a farsa instala-se e vemos a verdade que queremos até que ela assume uma forma quase física que não conseguimos contornar nem ignorar.
            Compreendemos então os sintomas, as dicas, todas as pequenas alterações nas nossas atitudes, nos nossos sentimentos, nas nossas reacções.
            E não é só inútil tentar voltar atrás porque não se pode, mas também porque não há sítio para onde voltar.
            Esse momento, o momento em que me despojei de um certo tipo de esperança, de alento, de conforto, chegou há muito, mas demorei a chamá-lo pelo nome.
            Ainda deixei entrar na minha casa, na minha cama homens em quem acreditei. Agora já não me dou a esse luxo. Deixo-os entrar, pois então, que às vezes sabem-me bem os beijos, os abraços, que isso não sei dar a mim mesma, mas tudo o resto fica à porta, e agradeço-lhes um certo tipo de silêncio.


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