É provavelmente o que de mais parecido tenho com uma superstição: tendo a acreditar que a forma como entro um novo ano terá influência na forma como ele decorrerá.
Nem sempre isto se comprova, evidentemente, mas tendo a acreditar que um bom começo é meio caminho andado.
Já deixei anos velhos e entrei em anos novos de tantas formas diferentes e com tantas pessoas diferentes que, forçosamente, associo esses primeiros minutos, essa quase esperança, ao que de bom e de mau depois me foi acontecendo.
Este ano que agora acaba, vou deixá-lo de uma forma inédita.
Com cuecas azuis a estrear ou não, o novo ano será, terá de ser, para o bem ou para o mal, um ano de mudança.


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    Morreste-me amiga, e eu não sei fazer-te um epitáfio, não sei sequer despedir-me de ti.
    Celebro a tua amizade, a cumplicidade, os risos, tantos, tantos, as confidências de adolescentes mesmo sendo mulheres feitas, desfeitas e depois refeitas.
    Fico a lembrar-me de quando te punhas a falar francês e a idealizar a tua união com ele, o vestido que usarias, o chapéu, o meu, de dama de honor. Zanguei-me contigo por continuares a amar um homem que não terias mais do que em fodas pontuais. Mas tu explicavas-me que era mais do que isso, tu vias mais do que isso. E eu não percebia que essa ilusão te dava força, te deixava seguir em frente, ainda que com os olhos e o peito no passado.
    As tuas dietas para caberes dentro da lingerie que compravas e que eu achava brega. O teu desespero a seguir quando te perdias no leite condensado e já nada parecia interessar-te.
    Agora tudo isso acabou. Já não terei mais o teu riso, a tua gargalhada, e a primeira imagem que me surge é a dos teus últimos dias, quando os teus olhos já não tinham força para brilhar.
    Morreste-me hoje amiga e fica a faltar-me o ar que respiravas.


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      Às vezes com o Vítor também era assim. Tanta confiança, tanta segurança a encherem-me de nervoso miudinho e a dar-me ganas de deitar todas as suas certezas por terra.

      Dessas vezes, vestia-me a seu gosto, deixava-o de boca bem cheia de água, de corpo bem cheio de tesão e saía sozinha.

      Fazia de cada homem que não me desagradasse um ataque às certezas que nunca seriam as minhas; de cada copo bebido entre sorrisos e trejeitos de sedução barata, de cada foda fortuita, um dedo em riste espetado em frente dos seus olhos como se lhe dissesse: Não te dás todo, não me terás toda.

      No momento, enquanto ajeitava a roupa e compunha o bâton, era como se fosse verdade. Mas no regresso, a nudez era a de sempre. E no meu sono desassossegado, era outra a mulher para quem ele sorria, com quem dançava entre sorrisos, a quem desviava madeixas teimosas do rosto, com quem brindava a muitos momentos felizes.

      Às vezes com o Vítor também era assim.


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        A chuva fixou-se
        nos meus cabelos pintados
        roubando-lhes o falso brilho.
        Colou-me a blusa à pele
        evidenciando-me os mamilos
        e deixando claro
        o tímido volume das minhas mamas.
        Escorreu-me pela cara
        lavando a maquilhagem que tenta esconder
        rugas e olheiras.
        Ajustou-me as calças
        acentuando o contorno já não tão redondo
        do meu rabo.
        Ainda assim, senti-me bonita.
        Ainda assim,
        na rua onde ninguém vai,
        despi a roupa molhada
        deixando apenas ficar as botas
        que disfarçam o tamanho dos meus pés,
        e dancei.
        Ainda assim,
        de olhos fechados,
        imaginei-me uma mulher bonita fotografada em Paris,
        a preto e branco.


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          Não compliquemos: Para que haja vontade de foder qualquer outro homem, bastam as emoções mais básicas.
          Básicas?, perguntei-lhe eu. Básicas: despeito e ciúme. Em último caso o medo.
          O medo?, voltei eu a perguntar. O medo, confirmou-me. O ataque como melhor defesa.
          E depois?, perguntei ainda. Depois, respondeu, lavas os dentes ou bebes vodka, verás que o amargo de boca fica disfarçado.
          Disfarçado?, perguntei baixinho. Disfarçado, explicou, indistinto, acima de tudo indistinto.


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            Fel. Ao fel junto algum ressentimento. Os infalíveis sangue, suor e lágrimas não poderão faltar. Amacio com saliva, dessa espessa que engrossa no desejo. Para amenizar, aromatizo com a enjoativa baunilha do creme que alguém me deu e que nunca uso.
            Espalho este bálsamo pelo teu corpo adormecido no sono de quem não teme perder seja o que for porque sabe que outro dia trará outros sóis.
            Provo do meu próprio veneno enquanto relembro Shakespeare (ressentimento é tomar veneno e esperar que outro morra), lambo os dedos e os lábios.
            Tu mexes-te um pouco na cama, deixas descobertas as costas. As minhas mãos são punhais mas não tas cravo. Continuo a espalhar a massa densa que deixei cozinhar em lume brando, na tua pele.
            Sei que quando acordares te irás embora. Se não fosse por isto, seria por outra coisa qualquer, antecipemos o anunciado.


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              Quantos homens te amaram tanto como eu?, perguntas-me.
              Eu, calada, não sei que palavras existem para te poder responder com verdade. Calada, sinto-me a um tempo uma adolescente tola perante a sua primeira paixão e uma mulher madura com o medo que nos traz a vivência.

              Quantas vezes te deram a mão no momento em que a negrura das profundezas de ti te sugava o sorriso e a alma?, perguntas-me.
              Eu, calada, não consigo lembrar-me de um porto que fosse de abrigo, de um peito onde estivesse em casa. Calada, espanto-me ainda com os caminhos que me trouxeram a ti.

              Há quanto tempo não escrevias sobre amor?, perguntas-me.
              Eu, calada, não sei como dizer-te que nunca o soube fazer. Calada, não te explico como tudo isto é tão absolutamente novo e claro.

              E é nesses silêncios que o meu medo maior, mesmo com a tua mão na minha, espreita desenhando a ausência depois de ti, depois da finitude inexorável de todas as coisas.


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                A noite ia fria e ainda pela metade quando acordei, o corpo a pedir-me não sei bem o quê.
                Levantei-me e experimentei um cigarro, enrolada na manta, à janela. Não bastou.
                Fui até à cozinha e com um garfo fui comendo marmelada, directamente da caixinha, enquanto ia distraidamente saltando os canais da televisão.
                Ainda vazia, voltei para a cama. Para afugentar o frio, encostei-me a ti, ao teu corpo quente e adormecido. Colei-me a ti procurando calor e o que primeiro encontrei foi o teu pénis, quente e húmido, descansadamente adormecido sobre a tua perna. A minha mão fria rapidamente o sobressaltou. Sosseguei-o com o calor da minha boca de hálito doce. Não parei quando te mexeste um pouco, nem sequer quando gemeste, e escondida debaixo dos lençóis, deixei que te viesses, dormente, na minha boca e assim a deixasses mais doce para o beijo de boa noite.


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                  É como se soubesses desde sempre como gosto e como quero que me sugues, mordas e beijes os mamilos, que me apertes as mamas que cabem certinhas nas tuas mãos. Que não te canses e que durante horas me deixes no limbo do orgasmo.





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                    É este o frio de que te falava, aquele em cujas noites fazes ainda mais falta na minha cama. O frio que afugentas de mim quando a tua língua na minha pele deixa um rasto de arrepio, um arrepio que não é já de frio mas de prazer puro que, aos poucos, se transforma em antecipação de um outro prazer, diferente mas igualmente intenso e completo; o prazer que se continua quando mergulho dentro dos lençóis que entretanto aquecem com o calor dos nossos corpos, e nesse mergulho encontro o teu pénis e é então ele que mergulha na minha boca e aí se vem.


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                      É esta a clandestinidade, a nossa, dos amantes que o Eugénio não cantou. Quem nos cantou? Quem cantou os amantes maduros, os que voltam no final do dia para as suas casas confortáveis, que se levantam de manhã para um trabalho exigente, que almoçam falando de negócios, de trabalho?

                      Quem nos foi explicando, em toda a poesia que lemos, em todos os romances, até mesmo nos filmes, como se abre os braços aos dias novos?


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                        Disseram-me um dia que isto me mataria, isto de querer a alma dos outros.
                        Não lhes quero a alma. Mas quero-lhes a essência, a disponibilidade, o interesse, o tempo,
                        a entrega, a honestidade total.
                        E que dou eu?, perguntaram-me quando me disseram que queria a alma dos outros.
                        Eu já não dou, numa primeira instância. Vou espreitando primeiro, vou dando à medida do que recebo, e mesmo assim tantas vezes dou demais.
                        Onde o equilíbrio? Onde a serenidade? Na primeira das sucessivas camadas de desencanto? Pelo contrário, nas camas pontuais?
                        Onde, se já não sou pássaro?


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                          (ainda)
                          Não é que, literalmente, as escreva, emoldure e pendure ao peito. Nada disso. As palavras, as bonitas que guardamos, estão gravadas na memória, leve e indelevelmente.
                          Homens, que também para eles tenho vivido, que souberam, não muitos, mas os suficientes, deixar-me palavras que passados tantos anos não esqueço.
                          Há quem diga que palavras leva-as o vento, como se se desculpasse de não as dizer, como se fosse fraqueza colocar-se ao nível de outros homens que as dizem. Há quem diga que prefere os actos, ainda que deles nunca tenha sido capaz. Há quem fale, fale, fale e nunca chegue a dizer o que importa.
                          Depois, passadas e enterradas as mágoas, é o que resta da história, essas palavras que podíamos pendurar ao peito se quiséssemos. Dos que não as disseram, nada resta.


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                            Acendo
                            um
                            cigarro
                            como
                            quem
                            acende
                            estrelas
                            e
                            espero
                            por
                            ti
                            na
                            varanda
                            de
                            chão
                            quente
                            num
                            outono
                            que
                            se
                            demora
                            como
                            a
                            tua
                            boca
                            na
                            minha.


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                              Há homens que passam por nós sem que nos deixem uma só frase bonita para emoldurarmos e pendurarmos no peito.


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                                Às vezes, no meio de um estado que cremos de felicidade, vem-nos a tristeza, anunciando-se como orgasmo em noites de inverno. Uma tristeza que encerra em si uma certa forma de angústia, uma certa forma de solidão.
                                É mesmo assim. Um espécie de anti-clímax, de equilíbrio, ou até mesmo de desequilíbrio, que vai mantendo alguma ordem no caos.
                                Às vezes vem essa tristeza que, anunciando-se como orgasmo, o impede como se fosse quase sacrilégio vir-me estando tão triste. Nesses dias, nessas noites em que a tristeza vem, digo-te enquanto o teu corpo se embala sobre o meu: “Hoje não me venho.” E tu fazes descair o teu peito sobre o meu, beijas-me devagar, desvias-me o cabelo desalinhado da cara e fazes amor comigo sem também te vires.
                                Às vezes é preciso que venha essa tristeza para que me assegure do quanto te amo, do quanto me amas.
                                Às vezes os sorrisos com lágrimas e com a tua saliva quente e espessa de desejo são a minha casa e adormeço sossegada no teu peito, amparada pelos teus braços.
                                Contigo não me falta o ar. Com a firmeza com que me seguras não chego a perder-me, a afogar-me no poço da tristeza em que nasci.
                                Às vezes a tristeza é um cobertor e tu aconchegas-me nele, afagando-me a pele fria e arrepiada e, por momentos, mesmo triste, perco o medo.


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                                  Queria ter as mãos dessas mulheres que escrevem as ondas que te embalam, que te movem. A voz dessas mulheres que dizem e cantam o que eu não sei.
                                  Queria ter o corpo dessas mulheres que olhas na rua e te fazem brilhar e mexer inquieto na cadeira.
                                  Só me tenho a mim. Não tenho mais para te dar, apenas este esboço de mulher inacabada, inquieta, imperfeita. Pouco, muito pouco para o oceano que te banha os olhos.
                                  Tenho estas mãos que tremem quando as seguras, estes olhos que querem fugir para longe quando os fitas, este corpo que se sente amedrontado quando te colas a ele.
                                  Tenho esta voz que vacila antes de te dizer do amor, esta voz desafinada que não pertence nem a mulher fortaleza nem a menina de tranças.
                                  Só me tenho a mim para te dar e não sei quem sou, não sei quem prevalece neste misto de mulheres em que me tornei.
                                  Apetece-me perguntar-te: se tiver medo, dás-me a mão? Mas sei que me responderias que sim, e tenho medo dessa resposta. Que saberei eu fazer com a tua mão, com o teu amor? Como aprenderei a despir-me, despir-me de verdade, perante ti, homem que encontrei quando já nem a mim procurava?


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                                    Tenho o girasol na minha janela. Tenho a almofada ainda com a tua marca. Tenho o amor que me escreveste para que não esqueça o que me disseste. Tenho os lábios em ferida. Tenho o teu perfume na minha pele. Tenho este livro de poemas que me deste, e que me lês como se fossem meus, em cima da cama.

                                    Saíste apenas hoje de manhã. E este apenas é uma eternidade longa demais para o quanto te quero.

                                    Olho gulosa para a caixa de chocolates que me trouxeste dessa tua primeira ausência e não ouso tocar-lhes; como se por cada um que comesse fosse minando o tempo que nos resta. É que, sabes?, a finitude começa no início.

                                    Depois de um caminho feito de perdas, agora faço amor, agora dou-me e recebo-te, agora não me importo que as cartas de amor sejam ridículas. E mostro-te, a ti, as minhas fraquezas desmascaradas. E dispo-me para ti como para ninguém antes. Resgataste-me de um passado atroz. E também por isso te amo.


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                                      Quando alguém nos fala em retorno, fala-nos em voltar a qualquer coisa passada, emoções passadas, lugares passados. Como se fosse possível fazê-lo, como se quiséssemos fazê-lo.

                                      O caminho faz-se caminhando, relembras-me tu, enquanto as tuas mãos parecem apoiar-se lentamente nas minhas costas. Mas então percebo: não se apoiam, apoiam-me, amparam-me, chegam mesmo a fazer uma leve pressão para que caminhando eu vá fazendo o meu caminho.

                                      E explicas-me baixinho, nessa voz sussurrada que usas não quando me fodes, mas quando fazemos amor, que existem mapas de onde podemos ir excluindo os caminhos errados e apontar a rota do caminho novo.

                                      Faço este caminho, mil vezes renascida.


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                                        Sei que me lês como se de facto te escrevesse. Mas escuta, não é bom que leves tudo à letra. Que me mimes quando menos espero. Que me fodas incansavelmente. Que me olhes antes de eu acordar. Que me dês a flor que eu gosto. Que te rias com olhos brilhantes. Que me desejes a qualquer hora do dia, da noite e mo digas e te venhas juntinho ao meu ouvido, aí longe. Não é bom que sejas tão atencioso comigo. Que tenhamos esta sintonia assustadora. Que partilhes comigo o que te faz viver. Que conheçamos e amemos as mesmas músicas, os mesmos livros. Que me leias poemas de amor quando estamos nus e suados, na cama.


                                        Não é bom. Arriscas-te a que me apaixone por ti.


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                                          Gosto disso. Quando te vens à distância, sozinho, e sentes a falta da minha língua na pele da tua barriga para beber todo o esperma que não entrou em mim.


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                                            Asa esquerda e asa direita, disseste tu. E eu repito-te. Como se me forçasse a acreditar que só assim se faz o voo.

                                            Rio-me. Digo-te que preciso da tua asa direita para equilibrar a minha asa esquerda, como se precisa da fealdade para realçar a beleza.

                                            Porém, não era preciso que me risse. A tua asa direita chega-se a mim e envolve-se na minha asa esquerda; a minha asa esquerda chega de mansinho e insinua-se na tua asa direita.

                                            Podemos então rir os dois das caras de espanto com que nos olham os que não percebem como equilibramos este voo.

                                            E é para a cama onde nos deitamos que levamos as diferenças e as semelhanças e dela, dessa cama que é a nossa, fazemos uma casa.



                                            "São asas. Que só duas fazem voo."



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                                              Dantes o Vítor chegava sempre com uma surpresa. Um presente, uma ideia para uma viagem ou apenas as vinte e quatro horas para mim.
                                              Porque era o meu aniversário oferecia-se a mim como em nenhum outro dia. Dizia ele que era a forma de me mostrar o quanto me queria.
                                              Eu acreditava porque tê-lo assim inteiro, nem que fosse por um dia, alimentava-me o coração, que o corpo, esse, nunca o descurei.
                                              Depois o Vítor partiu. E com ele foi um pedaço de mim.
                                              Agora, no dia do meu aniversário, fechada numa concha, longe de casa, telemóvel desligado, visto-me de outra mulher e esqueço-me que os anos se somam, que os dias se somam, e como animal selvagem, parto à conquista de uma presa fácil, que não quero perder tempo.


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                                                Uma janela, dois bancos conversadores, uma noite quente em fim de verão e o luar são evidências. Vulgaridades.

                                                Contudo, não é preciso mais.

                                                Com tão pouco um homem e uma mulher se podem olhar e depois ver. Iguais a tantos outros antes deles.



                                                Le soleil est venu
                                                Et reparti cent mille fois
                                                Depuis le jour du premier jour
                                                Du premier amour
                                                Le premier amour du monde
                                                Le premier amour du monde?
                                                C'était... quand?
                                                Et d'abord, comment se sont retrouvés
                                                Comment se sont retrouvés
                                                Le Ciel et l'Océan?
                                                Il a pris sa main sans le savoir
                                                Sans savoir où les menait la peur du premier soir
                                                Il a pris son corps contre le sien
                                                Sans savoir qu'un deuxième matin
                                                Renaîtrait des cendres du premier matin
                                                Ils ne savaient pas que d'autres jours
                                                Suivraient le premier jour
                                                Ils ne savaient pas que la naissance
                                                La naissance engendre la vie
                                                Et d'abord comment pouvaient-ils savoir
                                                Comment pouvaient-ils savoir
                                                Puisque les mots n'existaient pas
                                                Puisque les mots n'existaient pas
                                                Comment pouvaient-ils savoir
                                                Que l'Amour s'appellerait l'Amour?
                                                Ils ne savaient pas qu'ils inventaient
                                                La vie et la mort et la lumière du mois de mai
                                                Ils ne savaient pas que leurs enfants
                                                Peupleraient la terre d'autres enfants
                                                Ni que leurs coeurs allaient faire marcher le temps
                                                Et ce soir en marchant
                                                En marchant à contretemps de nos vingt ans
                                                Nous faisons ce qu'ont fait longtemps
                                                Longtemps des millions d'amants
                                                Et je prie en pensant
                                                A ce premier amour du monde
                                                Que jamais ne vienne le jour
                                                Du dernier amour
                                                (por SERGE REGGIANI)


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                                                  intermezzo II (de outubros outrora negros)


                                                  Prefiro a chuva a estes dias neutros, frios mas não muito, quase chuvosos, quase cinzentos, moribundos, impessoais, inqualificáveis de Outubro.
                                                  São dias deprimentes como o silêncio, como a tristeza, como o abandono sem, todavia, serem mudos, tristes ou solitários. As mãos arrefecem-nos o corpo, por contágio. O pensamento gela, expectante, algures entre o cérebro e o coração, entre a dúvida e a certeza, entre o choro e o riso, o silêncio e o grito, a vida e a morte.
                                                  Dias de Outubro, quase frios, quase noites. Dias de solidão quase indelével, quase suportável, quase aceitável, quase confortável. Dias de olhar pela janela sem ver nada, sem sentir, dias de nudez inigualável, de sentidos adormecidos, de olhos secos e língua áspera.
                                                  Não é o frio, nem o desconforto que me incomodam. É a aproximação a qualquer coisa, sem que chegue a ser coisa alguma. Não é a neutralidade que me conforta, é a dor, a certeza de que ainda não morri.
                                                  Outubro traz-me o cheiro da morte, esse cheiro que se reconhece sem se ter alguma vez conhecido; a morte, uma vez mais, envolta em contra-senso.
                                                  Outubro traz-me memórias embolorecidas de fotografias antigas, de risos esquecidos, de gestos parados, de aniversários celebrados sem alegria, dos primeiros dias de uma escola austera, onde pululam desconhecidos, onde ninguém dá por nós senão para nos puxarem os cabelos, cuidadosamente presos com uma fita de cetim lilás, celebrando uma morte ainda desconhecida, sempre reconhecida.
                                                  Outubro tem o cheiro desconfortável dos pescadores de mãos grossas, tristes, entre redes por remendar e pequenos navios friorentos.
                                                  Outubro tem a aflição e o desconforto do primeiro cigarro, também ele solitário, sempre com o encolhido rio por perto. Sempre um rio, raras vezes a largueza do mar.
                                                  Outubro tem o saboroso cheiro das castanhas assadas, mas a desagradável lembrança de uma despedida, a despedida de um estranho que me fez gostar do sabor dessas castanhas, por as ter partilhado comigo, na espera de um barco solitário, num dia igual a este, um estranho que levou nessa despedida toda a minha inocência, numa história tão marcante que nunca precisei de a contar. A quem a contarei agora? A quem contarei desse homem que encontrei no início da minha juventude, quando a solidão me assentava já tão bem, quando as caminhadas já se sucediam, boca cerrada e olhar firme, rompendo caminho por entre as pessoas apressadas e desatentas? A quem contarei as histórias de liberdade, em que um homem se faz homem, em que um homem aprende a chorar calado, aprende a gritar calado, aprende a amar calado?
                                                  A quem contarei, agora que estou quase morta, nestes dias quase mortos, a história desse homem que encontrei vagueando entre navios fantasma, que me confundiu a mim própria com um fantasma, desenganando-se apenas quando a minha profunda tristeza o assustou, de tão viva?
                                                  A quem contarei a história desse homem, acordando-me para o meu próprio egoísmo, falando-me da sua história de homem morto numa cidade de fantasmas, da sua morte prematura, prometida pelos carrascos que lhe arrancaram dos olhos a luz, arrancando-lhe da vida a mulher que amava, em nome da sordidez de um país, de um regime contra a qual lutavam nesse amor que lhes dava cor e luz?
                                                  A quem falarei agora do abanão que me deu a sua voz enquanto me falava a mim, uma adolescente perdida, como agora, nos nós do seu próprio umbigo, falando-me de valores maiores do que a própria vida, falando-me da grandeza dos homens que eu apenas conhecia dos livros, de quem nunca tinha visto os olhos magoados, as mãos, essas sim, abandonadas, numa solidão que se debatia entre a perda da mulher que amou e que perdeu, e a conquista da liberdade por que lutaram?
                                                  Os dias de Outubro trazem-me sabores amargos, as castanhas assadas trazem-me à boca, a um tempo, conforto e desconforto, ganhos e perdas, o sim e o não, todas as contradições.
                                                  Sangram os meus lábios e são os pássaros que estão feridos. É um sangue doce, quente e espesso que me escorre pela comissura dos lábios e me queima a pele como lava de um vulcão milenar, ainda a despertar, ainda sonolento.
                                                  Saio para a rua com estes rios de lava a escorrerem lentamente pelo meu pescoço, a desembocarem no mar morto que é o meu peito, os óculos escuros a escudarem-me de uma realidade menos brutal do que se suporia, que os tolos são inofensivos.
                                                  A mão que trago guardada no bolso brinca com as chaves presas num aro único de metal, a outra mão vai desviando o cabelo vermelho da face branca, tão branca, fria e aparentemente serena. Caminho devagar, dificilmente equilibrada, que este modo de caminhar não me é familiar. Fumo um charro em mortalha azul, enquanto caminho por entre homens e mulheres pequeninos que vejo azuis e vejo-me, de cima, da minha própria janela, mancha vermelha e negra caminhando devagar por entre um todo azul que se movimenta incerto, impreciso e difuso.


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                                                    intermezzo I (de outros outubros)


                                                    Não é todos os dias que me deito com um corsário. Não será hoje, também. Não é ele. Os vultos são todos iguais, os homens também, mais ainda se forem do mar. Já o mar não é de pedra, e os marinheiros são apenas carne. Carne que se sacia em cada porto, sem exigência objectiva de putas, princesas ou sereias.
                                                    Este marinheiro atira o cigarro para o rio com um estudado gesto de dedos, gira apenas o tronco na minha direcção e lança-me um olhar de sedução. Sinto-lhe o cheiro, agora que estou tão perto. Cheira a suor e a canja de galinha, como os homens nos meus piores pesadelos de adolescente. O casaco cheira a óleo, melhor, a bafio de navio precário. Peço-lhe um cigarro. Estende-mo aceso, acende-o olhando-me sobre ele, sorrindo ainda. Sorrio-lhe e ele não percebe que só não me desagrada porque me é indiferente.
                                                    As noites frias de Outubro deprimem-me mais do que quaisquer outras. Desaperto a minha blusa, nunca deixando de o fitar. Guio-lhe a mão ao meu peito, a sua mão está fria, é grossa. Com a outra mão desaperto-lhe as calças. Não o deixo beijar-me, puta que sou. Força-me a baixar-me e lambo-lhe levemente o sexo, primeiro, depois mais depressa, finalmente com violência. Mordo-o. Afasta-me e bate-me com força na cara. Solto uma gargalhada e levanto a saia, mostrando-lhe a brancura e a nudez escondida. Bate-me na cara, novamente, ainda não lhe ouvi a voz, só a ouvirei quando me chamar puta, repetidas vezes, enquanto me fode, depois de me voltar de costas para si e de me encostar ao ferro gelado que nos protege do rio. Fode-me por trás, com urgência, agarrado aos meus flancos com tal violência que me rasga a pele das ancas. O sangue obriga as suas mãos a escorregarem na minha carne e passa a segurar-me nas mamas, puxando-me para si, obrigando-me à sua cadência de animal bruto, bestial. Vem-se enquanto me bate nas nádegas, enquanto urra, quase de dor. Afasta-se e eu deixo cair a saia, que me chega até aos pés.
                                                    Sentamo-nos no chão frio e húmido. Acende mais dois cigarros, torna a estender-me um. Diz-me que o magoei e torna a chamar-me puta, agora com um sorriso. Pergunto-lhe se quer mais. Levanto a saia, novamente, sento-me sobre ele, enquanto fumo. Ele atira o seu cigarro para longe com o mesmo gesto artístico, estudado, apalpa-me as mamas, chupa-as, morde-as, puxa-as, violenta-as o mais que pode. Estende a língua, tenta beijar-me, esquece-se que sou uma puta, que não o beijarei. Continua a dedicar-se às minhas mamas que entram inteirinhas na sua boca de abutre, enquanto se masturba, com a mesma violência, com a mesma urgência. Puxa-me os cabelos, ordena-me que grite de dor, depois que gema, depois que lhe peça mais. A tudo obedeço, sou uma puta, estou ali para isso. Obrigo-o a penetrar-me e cavalgo-o com quanta força tenho, quero magoá-lo com os meus ossos, de todas as formas, já que a mim ninguém volta a magoar.
                                                    Levanto-me rapidamente, depois de o fazer vir-se novamente, saio de cima dele, enquanto me escorre pelas pernas o esperma quente, espesso, impessoal de mais um homem, de mais um vadio homem do mar, de quem me servi para saber se estou viva, de quem me afasto, deixando-o sentado no chão manchado e molhado, sem o chegar a saber. A saia cai de novo sobre os meus pés. Sacudo o cabelo e sigo o meu caminho.
                                                    Estar viva é, afinal, o quê? As sensações físicas? Os orgasmos? Os encontros fortuitos? Esta dor lancinante no meu peito? Não querer morrer? Querê-lo? Segui o caminho junto ao rio, subindo sempre até ao café do miradouro. Sentei-me, com sede, esquecida do frio da noite de Outubro que é esta.


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                                                      Nem sempre foi assim, expliquei-te eu enquanto me limpavas com a ponta do lençol.

                                                      Eu dantes não perdia tempo a pensar se acreditava ou não no que me diziam. Estava ali e era bom e isso bastava.

                                                      Mas os dias, os meses, os anos passaram e sem dar por isso fiquei com a pele do ventre mais flácida, as olheiras mais carregadas e a dúvida presente.

                                                      Quando paraste, por instantes de me limpar, e ficaste com o lençol suspenso da tua mão que tanto me ampara, com os teus olhos escuros e ao mesmo tempo tão claros, os teus olhos em mim, duvidei, por momentos, da minha própria dúvida.
                                                      Foi por isso que me debrucei sobre ti e te passei a língua nos lábios, como se lhes quisesse fixar a forma, como se quisesse neles gravar o meu hálito cansado. Foi por isso que te arranhei os ombros enquanto te fazia penetrar-me outra vez. Não foi uma foda, não foi fazer amor, foi apenas gravar-te.


                                                      E enquanto te gravava continuava a duvidar da minha dúvida e quis acreditar que me querias por mim, a mim.


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                                                        Zanguei-me contigo: nem sempre uma mulher gosta de gentilezas e palavras de amor. Eu, que sou muitas mulheres, como já sabias mesmo antes de me conheceres, gosto que chegues a casa e me fodas, sem sequer me dizeres olá, sem sequer quereres saber como foi o meu dia, sem que me contes do teu.

                                                        Gosto que me arranques do que quer que esteja a fazer e me mostres nessa foda repentina toda a urgência que te gerou a minha falta, que te venhas mesmo antes de eu começar a dar por isso, que esfregues por mim toda o teu esperma quente.


                                                        Gosto-te.


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                                                          Há feridas que não se vêem. A não ser se perante nós estiverem uns olhos já habituados a verem-se ao espelho e noutra pele reconheçam as suas.
                                                          Como tu comigo. Como tu quando me olhas, aparentemente distraída, aparentemente leve, e afinal contas cada cicatriz que disfarço sob camadas e camadas de maquilhagem.
                                                          Gosto de me deitar contigo, cada uma de nós encostada a um dos braços do sofá, as pernas enlaçadas para melhor caberem, o copo o o cigarro que vamos passando, da minha mão para a tua, da tua mão para a minha e mal nos tocamos.
                                                          Tu vês-me. E ouves-me. Dizes que os meus olhos falam. Dizes-me coisas bonitas. Fazes-me sentir coisas bonitas, fazes-me sentir bonita.
                                                          Deixo-me estar deitada, as minhas pernas nas tuas, o afago da tua pele sobre essas feridas que só tu vês, o cheiro do teu cabelo que aspiro levemente.
                                                          Há este amor. Simples. Apenas este amor.


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                                                            Um dia, talvez quando chegar o inverno, vou contar-te as minhas histórias. Com a tua ajuda. Escolhes uma das minhas rugas e começamos por aí. Primeiro as dos olhos. Depois aquelas duas que tenho no canto dos lábios e que me esmorecem a expressão quando não estou a sorrir. Depois, se quiseres, passamos para a flacidez da pele, e logo a seguir para os resultados da gravidade, de todo o peso que já carreguei nos ombros e no peito.
                                                            Despir-me-ei para ti. Toda.
                                                            Se quiseres, paramos um pouco e fazemos amor. Vai estar frio porque escolhi o inverno e vai apetecer-nos ficar na cama todo o dia, de janela fechada, arfantes por respirar o ar cansado e suado.
                                                            E se entretanto te apaixonares por mim, vou fingir que não reparo para não te constranger, e dou-te um beijo, desses inteiros que são teus, antes de adormecermos por instantes.


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                                                              Alguém me disse um dia, ou uma noite, não sei, sei que estávamos deitados numa cama que não era a minha e o calor desse corpo soube-me bem, que vivemos a nossa vida à procura de alguém que a viva connosco apenas pela necessidade de termos quem testemunhe a nossa passagem pelas horas.
                                                              Penso: é o amor um acto egoísta? Para nos servir mais do que para servir o outro? Se ele não me amar, se não se deslumbrar comigo, se não se lembrar de mim por cada rosa que vê, lembrar-me-ei eu dele quando a noite me mostra os seus olhos negros? Deslumbrar-me-ei? Amá-lo-ia se não soubesse que o nó também se ata no seu estômago?


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                                                                Cigarro após cigarro, vou consumindo a noite. A espera. A surpresa que é sentir a sua falta, mesmo com a armadura vestida.
                                                                São os beijos, com certeza. A foda completa, inteira, quase-quase verdadeira.
                                                                Asa esquerda e asa direita para juntas fazerem o voo equilibrado dos sentidos que se acordam e depois se saciam, quase assustados.
                                                                "Que este amor seja eterno enquanto dure."


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                                                                  Entrei na cidade já depois de o sol se pôr, mas pouco depois, de camisola preta, desnudados os ombros como se quisesse zombar deste outono que zomba de nós aquecendo-nos como no verão.
                                                                  Tu esperavas-me desse outro lado do rio onde quase parece que o único calor provém de ti.
                                                                  Sorriste-me mordendo os lábios e eu fui-me chegando a ti, desequilibrando-me nos meus saltos altos.
                                                                  Levaste-me para tua casa e bebemos vinho. Fumei um cigarro apressado na tua varanda, enquanto esperavas por mim na tua cama.
                                                                  Depois, de janela fechada, mascarámos de amor a foda urgente.



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                                                                    É tudo a fingir. É sempre tudo a fingir. Tu finges que és meu e eu finjo que sou tua, ambos fingimos que o mundo inteiro não importa perante a imensidão que é estarmos aqui, juntos; porque só assim, fingindo, podemos beijar-nos, como se fôssemos genuínos, como se o amor furtivo que fazemos fosse maior do que a casa onde nos escondemos, maior do que a cidade onde nos perdemos. É tudo a fingir, começámos por dizer nos pátios e quintais, em brincadeiras de criança, sem que pudéssemos saber que nos estávamos a amaldiçoar e que seria assim para o resto das nossas vidas, fingir para que pudéssemos beijar, foder e olhar quem se deitasse a nosso lado. É tudo a fingir, fingimos que não nos sentimos embaraçados por nos verem de mãos dadas na rua. Fingimos que não nos emocionamos com os dramas no cinema, que não nos dói quando nos arrancam pedaços do peito. Fingimos, abrimos o sorriso e a boca já pode dar-se num beijo, e o corpo já pode dar-se ao sexo fingindo que a primeira vez foi melhor do que o primeiro cigarro e que jurámos não repetir a coisa. Fingimos para que os passos continuem a levar-nos para a frente, para cima, para longe.
                                                                    Fingimos. Eu que sou tua e tu que és meu. E em mais um orgasmo fingimos que é possível a leveza. E abraçamo-nos depois.


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                                                                      Como a raposa no livro do príncipe que primeiro li em pequena, comecei calmamente a vestir o meu coração. A acalmá-lo, a sossegá-lo, a explicar-lhe que era apenas um fim de semana e que um homem é igual a outros homens. O coração, enquanto me vestia, ia contrapondo, que não, que não é bem assim, que me lembrasse do quanto procurei o Vítor e em nenhum outro homem o encontrei. Teimosa como sou, deixei o meu próprio coração a falar sozinho e passei a tratar do meu corpo. O banho demorado, a depilação cuidada, o hidratante cuidadosamente aplicado, o perfume dos dias que desejo bonitos, a lingerie escolhida para não ser demasiado óbvia, a roupa preta que me faz sentir em casa, onde quer que esteja.
                                                                      Vi-me ao espelho. Com o passar do tempo, vou dando por mim a lamentar que os homens que vou conhecendo não me tivessem conhecido quando era ainda firme, lisa, virgem de ressentimentos e desconfianças.
                                                                      Sacudi o cabelo como quem quer sacudir anos de peso e escolhi as botas. Agora sim, sou uma guerreira a postos, temerária, invencível.
                                                                      Os passos tremeram-me quando comecei a dirigir-me para a porta, quando iniciei o caminho que me levaria aos braços do homem, mas fingi que não reparava.
                                                                      Dele visualizava retalhos, as mãos (lembrava-me delas no meu peito tímido, nas minhas coxas, apertando-me as nádegas), os olhos (via-os brilhantes, na luz trémula do cais, embalados pelas ondas do rio), a voz (ouvia-o sussurrar-me o prazer, o desejo, a vontade e a surpresa), a nuca (sentia-lhe a pele quente e suada quando os meus beijos se iam afastando da boca e procuravam o outro todo que era o homem).
                                                                      Saí de casa deixando atrás de mim todas as imagens, memórias, histórias e desencantos.
                                                                      Aquele homem era agora, ele apenas, eu apenas, nada mais caberia na cama onde nos deitaríamos ansiosos, sedentos e surpreendidos. A noite, apenas essa. Sem pressas, sem planos, sem expectativas. O prazer. Puro. O prazer do sexo que aos poucos lhe ia descobrindo. O prazer dos risos leves. O prazer da sua pele na minha. O prazer que nos iluminará o sono, depois de cansados e saciados.
                                                                      Fechei a porta de casa e a farda de guerreira já me pesava.


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                                                                        Quase esquecida do ritual, saí do banho e parei em frente ao roupeiro. Hesitante, abri ainda a segunda gaveta da cómoda.
                                                                        Qualquer coisa que não denotasse ao primeiro assomo a cor da flor. Jeans nunca comprometem ninguém, ao invés dos vestidos pretos. Jeans, saltos altos, camisola inócua.
                                                                        Uma única nota dissonante, para mim mais do que para o homem com quem me encontraria junto ao rio, daí a pouco, o perfume, o meu, o da confiança em mim mesma.
                                                                        O riso. É bom o riso que nasce da empatia recente, da conversa que corre como água, do álcool que desinibe, da noite quente.
                                                                        O leve tremor com o primeiro toque, que se pretende casual mas que conhecemos de outras caminhadas. O corpo quente do homem que se vem chegando, tão óbvio na sua dissimulação, na aproximação que se permite porque sim.
                                                                        Os corpos que se inclinam para a frente no envolvimento de ideias, que nem só de carne se faz uma mulher, os pés nus na areia fria, o copo de cerveja que fica esquecido como testemunha dos beijos, das carícias, da sede.
                                                                        Depois a manhã, a sempre estranha manhã, o sempre corpo estranho que acorda ao nosso lado, mas que, em certos momentos, os tais em que a vida faz por nos compensar, minimiza a sua estranheza por ter um certo modo de dar os bons dias.
                                                                        As tréguas nas feridas maceradas uma e outra vez, na pele dorida e cansada, na saliva grossa, na ressaca de tantos anos.


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                                                                          Já não anseio por amor que o tempo das rosas frescas já passou. Mas prezo os dias. Os risos, os sorrisos, as mãos dadas. Os momentos ansiados porque deles nada se espera a não ser a sua própria momentaniedade, o tempo em que paramos, em que ficamos presos num nada e nesse nada somos livres.
                                                                          Com o tempo, o amor metamorfoseia-se em coisas tão pequenas que não entendemos como pudémos exigir tanto, outrora.
                                                                          Agora as rosas têm as pétalas mais espessas, mais aveludadas, mais resistentes. Menos frágeis. Menos meninas que cresceram e se esqueceram de deixar de acreditar em príncipes encantados.


                                                                          e-mail comments


                                                                            Há uma frase feita que diz que há um momento, o momento, que marca o lugar onde a nossa história muda, onde nada voltará a ser o que era. Claro que essa frase feita consegue dizer isto em menos palavras, eu é que fui perdendo a capacidade de síntese juntamente com outras, como a de conseguir engolir os shots segurando no copo com os dedos do pé.
                                                                            Esse momento apanha-nos sempre de surpresa, nunca nos apanha prevenidos e muito menos receptíveis a ele, ao momento, ou a ela, à mudança.
                                                                            Durante algum tempo, a farsa instala-se e vemos a verdade que queremos até que ela assume uma forma quase física que não conseguimos contornar nem ignorar.
                                                                            Compreendemos então os sintomas, as dicas, todas as pequenas alterações nas nossas atitudes, nos nossos sentimentos, nas nossas reacções.
                                                                            E não é só inútil tentar voltar atrás porque não se pode, mas também porque não há sítio para onde voltar.
                                                                            Esse momento, o momento em que me despojei de um certo tipo de esperança, de alento, de conforto, chegou há muito, mas demorei a chamá-lo pelo nome.
                                                                            Ainda deixei entrar na minha casa, na minha cama homens em quem acreditei. Agora já não me dou a esse luxo. Deixo-os entrar, pois então, que às vezes sabem-me bem os beijos, os abraços, que isso não sei dar a mim mesma, mas tudo o resto fica à porta, e agradeço-lhes um certo tipo de silêncio.


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