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(pra não dizer que esqueco os dias púrpura)
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imagem: rogério marcondes
Tinha frio, na rua. Tu não? Não te divertiu o meu nariz avermelhado? Ainda não te ouvi rir. Talvez o faças depois do orgasmo. Eu gosto de rir depois, mas não sei se rirei contigo. Não te conheço nem te beijei.
Gostas do tule dos cortinados assim agitados pelo ar quente que circula? E do meu cabelo agitado pela tua respiração?
Eu estou a gostar de ti. Mas é fácil gostarmos de quem nos trata bem o corpo. Não, não insistas, não quero ir para a cama. Gosto do chão junto ao sofá. Daqui a pouco liberto-me. Por agora, estou a gostar de ser o teu objecto de prazer, sem inquietações, sem medo de que não gostes de mim ou de que partas. Sem posse, sem ciúme, sem promessas nem projectos. Apenas o instante. O instante que podemos prolongar enquanto nos for agradável.
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Depois, de repente, como foi que aí chegámos?, um beijo. A tua língua sôfrega na minha. A minha língua na tua macia, os meus lábios na tua barba cuidada, de quantos dias?
Os meus braços envolvendo-te o pescoço (és mais alto do que me tinha parecido), os teus braços enlaçando-me a cintura. As mãos tornadas exploradoras de um território que não sabíamos por explorar.
Sinto-te respirar no meu pescoço e gosto. Ouço-te a voz, falas baixinho, e parece-me que nunca te tinha ouvido antes. Sinto-te a carne firme, o ventre liso, os braços de músculos retesados que me cingem a ti. Abro os olhos e vejo-te enquanto me beijas, de olhos fechados. Estás ali. Estás naquele beijo. Estás ali, indiferente ao que nos rodeia. Estás todo ali, sem artifícios, sem mais jogos, sem outra fantasia que não a de estarmos os dois enlaçados, envolvidos.
Sinto-te o desejo na massa dura que agarro sobre as tuas calças. Estou a descobrir-te. Como tu a mim quando me desapertas o cinto, depois o botão, depois corres o fecho das calças e finalmente fazes entrar a tua mão em mim e então és tu que sentes o meu desejo.
Quero-te a ti, que estás ali, nesse momento a ninguém mais, nesse momento és tu, e tu já não és o amigo de anos, mais de uma dezena, o amigo dos jogos, das confissões, das confidências, dos cigarros. Mas és o dos risos, afastamos as bocas para nos rirmos, alegres como crianças que descobriram um pequeno tesouro no quintal, sem culpas, sem recriminações, sem razão que nos atrapalhe.
Olho-te de soslaio no vidro do quadro que nos reflecte. Fodes-me de olhos fechados, primeiro. Depois abriste-os, olhaste-me como quem vê de fora, sem saberes que te via reflectido, que te olhava também eu, que me parecias outro, transfigurado pelo desejo, tu, cujo sabor fiquei a conhecer, depois de te ter conhecido a ti.
Anos e anos, mais de uma dezena, e de repente somos outros e não chegamos a pensar que andámos a perder tempo, porque não andámos; é por causa desse tempo que não perdemos que agora usufruimos deste, que ganhamos, que ganhámos.
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Mas chamaste-me Rosa dos Ventos, e com esse pormenor fizeste-te diferente. É verdade, não sabias?, a mim não me seduzem presentes caros e fins de semana em spas; a mim seduzem-me as palavras. As palavras com que me pedes um broche. As palavras sem sentido que dizes quando te vens. As palavras. Como Rosa dos Ventos. Mesmo que não saibas que sou como aquelas plantas do deserto, sem raizes, arrastadas pelo vento, com leveza, sem esperas.
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E depois, de repente, fica uma mulher sem saber em que frame se há-de concentrar para se vir mais fortemente.Revê as mais recentes, estão ainda com cores vivas e sem imagens fugidias.
A inesperada primeira foda, apressada, melhor, ansiosa, na sala de porta aberta para quem calhasse passar? As palavras sussuradas soprando-lhe para o pescoço? A confissão de desejo adiado? As mãos dificilmente enfiadas numas calças e as outras mãos mais à vontade metidas noutras calças? A roupa e o cabelo compostos à pressa porque alguém chega?
A foda já conhecida e por isso tão inteira? Os caminhos para um orgasmo que se sabe de cor e que por isso se anseia? O corpo que se conhece e que já se molda ao nosso, sem se perder tempo com descobertas?
A outra foda, a repetida clandestinamente, casualmente, foda absoluta de animais absolutos?
Optou por fixar-se na concentração de todas, separadas por poucas horas, por poucos quilómetros, imaginando-se a caçadora que caça por onde passa, pelo prazer de caçar, não pela necessidade.
O prazer.
E veio-se, a mulher, lamentando apenas outra ainda, a que já não tinha tido tempo de caçar, a que um mar inteiro separava, provavelmente a que mais lhe tinha apetecido.
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Não o desejo que advém do amor ou da paixão, o desejo carnal, apenas, objectivamente por mim. De um homem que me quer a mim por ser eu, não apenas porque a oportunidade surge.
Uma forma de soprar o pó cinzento que cobre a cor púrpura. Antes que com a idade murche de vez.
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Eu não sou mais do que isto. Tu não és mais do que o que sonho. A realidade é outra. No escuro não vejo as imperfeições e posso, depois, adormecer sossegada.
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Sabia da utopia que sonhava real, do seu punho no ar enquanto no peito o coração lhe assalta o peito, sabia das suas mãos abertas e dos seus olhos grandes com o vermelho das bandeiras, sabia do que cantava, sabia do único ícone que aceitava, sabia daquilo em que acreditava.No pólo oposto olhava-a sarcástico, por vezes acutilante, por vezes divertido.
Sem que lhes parecessem incontornáveis estas dificuldades, fazendo por ignorar outras, delinearam uma estrada por onde seguiram juntos, um na berma esquerda do caminho outro na direita, de mãos dadas, como deve ser, que afinal a liberdade é o bem maior.
(De vez em quando ela olhava para trás, tropeçava, atrasando-lhe o passo.)
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Venho-me. Para mim apenas. Sem fantasias outras que me distraiam, que repartam o mérito deste orgasmo solitário com que encho a insónia e os sentidos.
Levanto-me para fumar um cigarro, na janela de outro quarto que não aquele onde durmo, do quarto onde guardo o computador, os discos antigos, outros pedaços de vida e de história. O computador avisa-me da chegada de novo email. Vou espreitar. Do outro lado da noite chega-me este pedaço de ti. Abro a foto e a minha boca ainda encortiçada pelo orgasmo recente, começa lentamente a encher-se de saliva, uma saliva grossa, a do desejo. E imagino, quase sinto, esta tua carne, este teu sangue na minha boca, a minha lingua passando arrastando a pele, descobrindo a tua maior sensibilidade, os meus dedos na tua boca, procurando e encontrando suavemente a tua lingua. Olho para a foto que me enviaste e este pedaço de ti, esta virilidade a preto e branco é tão real que a minha boca está cheia de ti, que te sinto os impulsos, que te sinto contra a minha garganta, que sinto a minha lingua envolvendo-te, quente, tão quente tu, desse lado da noite.
Depois, de olhos fechados como se viesse o sono, fico a degustar o sabor do esperma que não me deixaste na boca, mas que podias ter deixado, se o teu lado da noite e o meu lado da noite fossem, esta noite, o mesmo.
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E eu amei-te tão alegremente que hoje só ao segundo olhar me reconheces.
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Eu tenho uma colecção de piores coisas que já me disseram. Uma colecção que guardo, estimo e cuido como se fossem peças de museu.
De vez em quando a colecção ganha mais um elemento. Mais uma palavra, uma frase ou uma expressão que vou rodando nos dedos, a cada minuto, durante muito tempo, até que, por fim, consigo libertá-la das mãos e pousá-la na prateleira, junto às outras.
Solução de compromisso. Solução de compromisso. Solução de compromisso.
Antes de a libertar, tento encontrar-lhe préstimo, como quando me deixava ficar debaixo de um homem que já não me dava tusa, só para não ter de lho dizer.
Solução de compromisso.
Solução de compromisso é como orgasmo fingido, verdade adiada.
Puta que me pariu a vida.
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Deitada sobre os lençóis brancos, ainda fiz escorregar o corpo ligeiramente para cima, na esperança de que a tua mão percebesse que se devia deixar ficar, indicando-lhe o caminho.
Mas não. A tua mão perdeu-se em carícias distraídas na pele da minha barriga, como quem faz isso todos os dias e já nem repara ao que vai.
Depois, o peso das horas, dos dias, das semanas, trouxe o sono, o teu sono. Senti-te dormir, sossegado, quieto, confiante, alheio, enquanto de costas para ti, sentada à janela, enrolada numa velha manta de viagem, fumei mais um culpado, amargo, pesado, cansado cigarro.
(Como eu queria, meu querido, a leveza que perdi noutros dias, para me deixar ficar, sem sobressaltos.)
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“Um dia, já eu era velha”, quando já precisava de descansar em cada esquina do dia, antes de seguir o caminho, os meus sentidos tropeçaram nela.O que se diz por aí das mulheres apaixonadas? Que são mais atentas? Mais palermas? Mais intuitivas?
Mais do que perceber-lhe as formas, a cor do cabelo, o jeito das mãos, senti-lhe o cheiro e distrai-me com o som do vento a passar pelos seus cabelos.
Mentalmente, como me habituei a certos diálogos, disse-lhe que gostava que fosse minha. “Tua amiga? Tua amante? Tua irmã?”
Apenas minha. Como se fosse o que fui perdendo de mim e que em certas manhãs de frio, afinal, me faz falta.
“Estás apaixonada?”, perguntou-me ela. Mas o meu tempo de descanso na esquina do dia tinha já chegado ao fim e eu tive que seguir caminho, sem lhe poder responder.
Mais tarde no dia, como tantas, tantas vezes, havia de lamentar a minha pressa.
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Nem sempre isto se comprova, evidentemente, mas tendo a acreditar que um bom começo é meio caminho andado.
Já deixei anos velhos e entrei em anos novos de tantas formas diferentes e com tantas pessoas diferentes que, forçosamente, associo esses primeiros minutos, essa quase esperança, ao que de bom e de mau depois me foi acontecendo.
Este ano que agora acaba, vou deixá-lo de uma forma inédita.
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O medo?, voltei eu a perguntar. O medo, confirmou-me. O ataque como melhor defesa.
E depois?, perguntei ainda. Depois, respondeu, lavas os dentes ou bebes vodka, verás que o amargo de boca fica disfarçado.
Disfarçado?, perguntei baixinho. Disfarçado, explicou, indistinto, acima de tudo indistinto.
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Provo do meu próprio veneno enquanto relembro Shakespeare (ressentimento é tomar veneno e esperar que outro morra), lambo os dedos e os lábios.
Tu mexes-te um pouco na cama, deixas descobertas as costas. As minhas mãos são punhais mas não tas cravo. Continuo a espalhar a massa densa que deixei cozinhar em lume brando, na tua pele.
Sei que quando acordares te irás embora. Se não fosse por isto, seria por outra coisa qualquer, antecipemos o anunciado.
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Quantas vezes te deram a mão no momento em que a negrura das profundezas de ti te sugava o sorriso e a alma?, perguntas-me.
Eu, calada, não consigo lembrar-me de um porto que fosse de abrigo, de um peito onde estivesse em casa. Calada, espanto-me ainda com os caminhos que me trouxeram a ti.
Há quanto tempo não escrevias sobre amor?, perguntas-me.
Eu, calada, não sei como dizer-te que nunca o soube fazer. Calada, não te explico como tudo isto é tão absolutamente novo e claro.
E é nesses silêncios que o meu medo maior, mesmo com a tua mão na minha, espreita desenhando a ausência depois de ti, depois da finitude inexorável de todas as coisas.
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Fui até à cozinha e com um garfo fui comendo marmelada, directamente da caixinha, enquanto ia distraidamente saltando os canais da televisão.
Ainda vazia, voltei para a cama. Para afugentar o frio, encostei-me a ti, ao teu corpo quente e adormecido. Colei-me a ti procurando calor e o que primeiro encontrei foi o teu pénis, quente e húmido, descansadamente adormecido sobre a tua perna. A minha mão fria rapidamente o sobressaltou. Sosseguei-o com o calor da minha boca de hálito doce. Não parei quando te mexeste um pouco, nem sequer quando gemeste, e escondida debaixo dos lençóis, deixei que te viesses, dormente, na minha boca e assim a deixasses mais doce para o beijo de boa noite.
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É este o frio de que te falava, aquele em cujas noites fazes ainda mais falta na minha cama. O frio que afugentas de mim quando a tua língua na minha pele deixa um rasto de arrepio, um arrepio que não é já de frio mas de prazer puro que, aos poucos, se transforma em antecipação de um outro prazer, diferente mas igualmente intenso e completo; o prazer que se continua quando mergulho dentro dos lençóis que entretanto aquecem com o calor dos nossos corpos, e nesse mergulho encontro o teu pénis e é então ele que mergulha na minha boca e aí se vem.e-mail comments

Quem nos foi explicando, em toda a poesia que lemos, em todos os romances, até mesmo nos filmes, como se abre os braços aos dias novos?
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Não lhes quero a alma. Mas quero-lhes a essência, a disponibilidade, o interesse, o tempo, a entrega, a honestidade total.
E que dou eu?, perguntaram-me quando me disseram que queria a alma dos outros.
Eu já não dou, numa primeira instância. Vou espreitando primeiro, vou dando à medida do que recebo, e mesmo assim tantas vezes dou demais.
Onde o equilíbrio? Onde a serenidade? Na primeira das sucessivas camadas de desencanto? Pelo contrário, nas camas pontuais?
Onde, se já não sou pássaro?
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Às vezes, no meio de um estado que cremos de felicidade, vem-nos a tristeza, anunciando-se como orgasmo em noites de inverno. Uma tristeza que encerra em si uma certa forma de angústia, uma certa forma de solidão.É mesmo assim. Um espécie de anti-clímax, de equilíbrio, ou até mesmo de desequilíbrio, que vai mantendo alguma ordem no caos.
Às vezes vem essa tristeza que, anunciando-se como orgasmo, o impede como se fosse quase sacrilégio vir-me estando tão triste. Nesses dias, nessas noites em que a tristeza vem, digo-te enquanto o teu corpo se embala sobre o meu: “Hoje não me venho.” E tu fazes descair o teu peito sobre o meu, beijas-me devagar, desvias-me o cabelo desalinhado da cara e fazes amor comigo sem também te vires.
Às vezes é preciso que venha essa tristeza para que me assegure do quanto te amo, do quanto me amas.
Às vezes os sorrisos com lágrimas e com a tua saliva quente e espessa de desejo são a minha casa e adormeço sossegada no teu peito, amparada pelos teus braços.
Contigo não me falta o ar. Com a firmeza com que me seguras não chego a perder-me, a afogar-me no poço da tristeza em que nasci.
Às vezes a tristeza é um cobertor e tu aconchegas-me nele, afagando-me a pele fria e arrepiada e, por momentos, mesmo triste, perco o medo.
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Queria ter as mãos dessas mulheres que escrevem as ondas que te embalam, que te movem. A voz dessas mulheres que dizem e cantam o que eu não sei.Queria ter o corpo dessas mulheres que olhas na rua e te fazem brilhar e mexer inquieto na cadeira.
Só me tenho a mim. Não tenho mais para te dar, apenas este esboço de mulher inacabada, inquieta, imperfeita. Pouco, muito pouco para o oceano que te banha os olhos.
Tenho estas mãos que tremem quando as seguras, estes olhos que querem fugir para longe quando os fitas, este corpo que se sente amedrontado quando te colas a ele.
Tenho esta voz que vacila antes de te dizer do amor, esta voz desafinada que não pertence nem a mulher fortaleza nem a menina de tranças.
Só me tenho a mim para te dar e não sei quem sou, não sei quem prevalece neste misto de mulheres em que me tornei.
Apetece-me perguntar-te: se tiver medo, dás-me a mão? Mas sei que me responderias que sim, e tenho medo dessa resposta. Que saberei eu fazer com a tua mão, com o teu amor? Como aprenderei a despir-me, despir-me de verdade, perante ti, homem que encontrei quando já nem a mim procurava?
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Saíste apenas hoje de manhã. E este apenas é uma eternidade longa demais para o quanto te quero.
Olho gulosa para a caixa de chocolates que me trouxeste dessa tua primeira ausência e não ouso tocar-lhes; como se por cada um que comesse fosse minando o tempo que nos resta. É que, sabes?, a finitude começa no início.
Depois de um caminho feito de perdas, agora faço amor, agora dou-me e recebo-te, agora não me importo que as cartas de amor sejam ridículas. E mostro-te, a ti, as minhas fraquezas desmascaradas. E dispo-me para ti como para ninguém antes. Resgataste-me de um passado atroz. E também por isso te amo.
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Faço este caminho, mil vezes renascida.
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Não é bom. Arriscas-te a que me apaixone por ti.
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Rio-me. Digo-te que preciso da tua asa direita para equilibrar a minha asa esquerda, como se precisa da fealdade para realçar a beleza.
Porém, não era preciso que me risse. A tua asa direita chega-se a mim e envolve-se na minha asa esquerda; a minha asa esquerda chega de mansinho e insinua-se na tua asa direita.
Podemos então rir os dois das caras de espanto com que nos olham os que não percebem como equilibramos este voo.
E é para a cama onde nos deitamos que levamos as diferenças e as semelhanças e dela, dessa cama que é a nossa, fazemos uma casa.
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Porque era o meu aniversário oferecia-se a mim como em nenhum outro dia. Dizia ele que era a forma de me mostrar o quanto me queria.
Eu acreditava porque tê-lo assim inteiro, nem que fosse por um dia, alimentava-me o coração, que o corpo, esse, nunca o descurei.
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intermezzo II (de outubros outrora negros)
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intermezzo I (de outros outubros)
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Eu dantes não perdia tempo a pensar se acreditava ou não no que me diziam. Estava ali e era bom e isso bastava.
Mas os dias, os meses, os anos passaram e sem dar por isso fiquei com a pele do ventre mais flácida, as olheiras mais carregadas e a dúvida presente.
Quando paraste, por instantes de me limpar, e ficaste com o lençol suspenso da tua mão que tanto me ampara, com os teus olhos escuros e ao mesmo tempo tão claros, os teus olhos em mim, duvidei, por momentos, da minha própria dúvida.
Foi por isso que me debrucei sobre ti e te passei a língua nos lábios, como se lhes quisesse fixar a forma, como se quisesse neles gravar o meu hálito cansado. Foi por isso que te arranhei os ombros enquanto te fazia penetrar-me outra vez. Não foi uma foda, não foi fazer amor, foi apenas gravar-te.
E enquanto te gravava continuava a duvidar da minha dúvida e quis acreditar que me querias por mim, a mim.
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Gosto que me arranques do que quer que esteja a fazer e me mostres nessa foda repentina toda a urgência que te gerou a minha falta, que te venhas mesmo antes de eu começar a dar por isso, que esfregues por mim toda o teu esperma quente.
Gosto-te.
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Fingimos. Eu que sou tua e tu que és meu. E em mais um orgasmo fingimos que é possível a leveza. E abraçamo-nos depois.
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Uma única nota dissonante, para mim mais do que para o homem com quem me encontraria junto ao rio, daí a pouco, o perfume, o meu, o da confiança em mim mesma.
O riso. É bom o riso que nasce da empatia recente, da conversa que corre como água, do álcool que desinibe, da noite quente.
O leve tremor com o primeiro toque, que se pretende casual mas que conhecemos de outras caminhadas. O corpo quente do homem que se vem chegando, tão óbvio na sua dissimulação, na aproximação que se permite porque sim.
Os corpos que se inclinam para a frente no envolvimento de ideias, que nem só de carne se faz uma mulher, os pés nus na areia fria, o copo de cerveja que fica esquecido como testemunha dos beijos, das carícias, da sede.
Depois a manhã, a sempre estranha manhã, o sempre corpo estranho que acorda ao nosso lado, mas que, em certos momentos, os tais em que a vida faz por nos compensar, minimiza a sua estranheza por ter um certo modo de dar os bons dias.
As tréguas nas feridas maceradas uma e outra vez, na pele dorida e cansada, na saliva grossa, na ressaca de tantos anos.
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Agora as rosas têm as pétalas mais espessas, mais aveludadas, mais resistentes. Menos frágeis. Menos meninas que cresceram e se esqueceram de deixar de acreditar em príncipes encantados.
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Esse momento apanha-nos sempre de surpresa, nunca nos apanha prevenidos e muito menos receptíveis a ele, ao momento, ou a ela, à mudança.
Durante algum tempo, a farsa instala-se e vemos a verdade que queremos até que ela assume uma forma quase física que não conseguimos contornar nem ignorar.
Compreendemos então os sintomas, as dicas, todas as pequenas alterações nas nossas atitudes, nos nossos sentimentos, nas nossas reacções.
E não é só inútil tentar voltar atrás porque não se pode, mas também porque não há sítio para onde voltar.
Esse momento, o momento em que me despojei de um certo tipo de esperança, de alento, de conforto, chegou há muito, mas demorei a chamá-lo pelo nome.
Ainda deixei entrar na minha casa, na minha cama homens em quem acreditei. Agora já não me dou a esse luxo. Deixo-os entrar, pois então, que às vezes sabem-me bem os beijos, os abraços, que isso não sei dar a mim mesma, mas tudo o resto fica à porta, e agradeço-lhes um certo tipo de silêncio.
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